Visa, Mastercard e Ant criam regras comuns para compras feitas por agentes de IA

Visa, Mastercard e Ant International estão a criar regras comuns para identificar agentes de inteligência artificial capazes de realizar compras. O objetivo é preparar os pagamentos digitais para um mercado em que quem executa uma transação pode já não ser uma pessoa, mas um programa autorizado a agir em seu nome.
14 de Setembro, 2026

A inteligência artificial está a aproximar-se da caixa. Os agentes deixam gradualmente de se limitar a recomendar produtos e começam a poder executar compras, uma mudança que obriga os sistemas de pagamento a responder a uma questão nova: como distinguir, identificar e controlar software autorizado a gastar dinheiro em nome de uma pessoa ou empresa?

As previsões apresentadas pelo setor apontam para que estes sistemas possam gerir entre 3 e 5 biliões de dólares do comércio retalhista mundial até 2030. É perante essa escala potencial que Ant International, Mastercard e Visa estão a desenvolver o Know-Your-Agent (KYA), um quadro comum destinado ao registo e identificação dos agentes de IA nas diferentes redes de pagamento.

As três organizações já tinham desenvolvido mecanismos próprios, através do Trusted Agent Protocol da Visa, do Verifiable Intent da Mastercard e do Agentic Mobile Protocol da Ant International. O KYA pretende tornar estas abordagens interoperáveis, mantendo os processos de decisão e verificação específicos de cada rede.

O princípio é simples: se um agente pode comprar, o sistema precisa de saber quem o autorizou, que poderes recebeu e se continua a comportar-se dentro desses limites. Cada agente deverá ficar associado a um utilizador, titular de cartão ou empresa previamente validada, enquanto requisitos comuns de certificação avaliarão a segurança e o comportamento do software. As transações serão ainda acompanhadas continuamente através do cruzamento de sinais de identidade, atividade e risco.

Esta alteração muda também a forma como se pensa a identidade nos pagamentos digitais. Até agora, grande parte da infraestrutura foi construída para validar pessoas, empresas, cartões e dispositivos. Com os agentes autónomos surge uma nova entidade entre o utilizador e a transação. O próximo utilizador de uma infraestrutura de pagamentos pode ser software.

Para plataformas, fornecedores financeiros e criadores de carteiras digitais, regras comuns podem reduzir a duplicação dos processos de verificação e os custos de integração. Para os CIO e responsáveis pelas compras tecnológicas, a consequência é igualmente relevante: implementar agentes capazes de realizar operações financeiras deixa de ser apenas uma decisão sobre IA. Passa a envolver identidade digital, permissões, rastreabilidade, segurança e monitorização permanente.

E identificar o agente poderá não chegar. O modelo prevê que a confiança considere igualmente o seu comportamento, capacidade de execução e sinais de risco. Um programa pode estar devidamente identificado e, ainda assim, executar uma operação fora dos limites definidos pelo utilizador.

A colaboração deverá continuar através do quadro Safeguards for Agentic Finance at Runtime e da plataforma BuildFin.ai, ligada à Autoridade Monetária de Singapura. O objetivo é criar condições para que estes mecanismos possam funcionar entre diferentes ecossistemas financeiros.

Se os agentes de IA começarem realmente a comprar em escala, os pagamentos terão de aprender a confiar em software sem deixarem de controlar quem está, afinal, a gastar o dinheiro. O KYA é uma tentativa de construir essa infraestrutura antes de os agentes autónomos se tornarem clientes habituais do comércio digital.

Opinião