TI confia no futuro mas já não promete ficar

Os profissionais de Tecnologias de Informação estão entre os mais confiantes nas suas competências, empregabilidade e capacidade de acompanhar a transformação tecnológica. Mas essa segurança convive com níveis elevados de stress e burnout e com uma reduzida intenção de permanência nas empresas, segundo o Global Talent Barometer 2026.
25 de Agosto, 2026

O setor das Tecnologias de Informação apresenta um dos paradoxos mais claros do atual mercado de trabalho. Os profissionais sentem-se preparados para desempenhar as suas funções, acreditam na capacidade de evoluir profissionalmente e consideram que conseguiriam encontrar um novo emprego com relativa facilidade. Ao mesmo tempo, uma parte significativa trabalha sob níveis elevados de pressão e não demonstra uma relação particularmente duradoura com a organização onde está.

Os dados constam do Global Talent Barometer 2026, do ManpowerGroup, que analisa 12 indicadores distribuídos pelos índices de Bem-Estar, Satisfação no Trabalho e Confiança. A pontuação global do estudo ficou nos 67%, menos um ponto percentual do que no ano anterior.

Nas TI, a aparente contradição torna-se particularmente visível. O Índice de Confiança atinge 84%, mas apenas 44% dos profissionais dizem estar satisfeitos com o atual emprego e sem intenção de mudar de empresa nos seis meses seguintes.

Este desfasamento entre confiança profissional e compromisso com a organização ajuda a explicar uma mudança importante na relação entre empresas e trabalhadores tecnológicos. Ter perspetivas de carreira, acesso a formação ou confiança nas próprias competências continua a ser relevante, mas deixou de ser suficiente para garantir permanência.

O Índice de Bem-Estar das TI situa-se nos 72%. Cerca de 86% dos profissionais dizem encontrar significado e propósito no trabalho, 82% consideram-se alinhados com a visão e os valores da empresa e 80% afirmam sentir apoio na conciliação entre a vida profissional e pessoal.

Os indicadores positivos, contudo, coexistem com uma pressão elevada. Mais de metade dos profissionais de TI, 53%, refere níveis elevados de stress no quotidiano, colocando o setor apenas atrás de Energia & Utilities neste indicador.

A situação torna-se mais evidente quando se analisa o burnout. Sete em cada dez profissionais de TI afirmam sentir ou ter sentido recentemente burnout, o valor mais elevado entre os setores analisados.

Entre as causas identificadas surgem o stress, mencionado por 29% dos trabalhadores, a carga de trabalho associada a prazos apertados ou considerados irrealistas, com 28%, e as longas jornadas de trabalho, referidas por 24%.

O problema deixa assim de poder ser observado apenas através das condições tradicionais associadas ao emprego tecnológico. Um trabalhador pode reconhecer propósito no que faz, identificar oportunidades profissionais dentro da empresa e confiar na sua chefia e, apesar disso, considerar uma mudança de organização.

Essa realidade é particularmente relevante num setor onde as competências especializadas continuam a ter procura e onde os próprios trabalhadores têm consciência dessa posição.

O Índice de Satisfação no Trabalho das TI situa-se nos 62%. Cerca de 78% dos profissionais dizem confiar no responsável direto e considerar que este tem em conta os seus interesses de carreira. Contudo, menos de metade manifesta simultaneamente satisfação com a função atual e intenção de permanecer na empresa durante os seis meses seguintes.

Cerca de 72% acreditam que conseguiriam encontrar outro emprego nos próximos seis meses, dez pontos percentuais acima da média considerada pelo estudo.

Existe, ainda assim, outro sinal aparentemente contraditório. Quatro em cada dez profissionais dizem não sentir segurança relativamente ao atual posto de trabalho e receiam perdê-lo durante os seis meses seguintes.

A combinação destes indicadores sugere uma relação diferente com o risco profissional. O receio de perder o emprego não significa necessariamente que o trabalhador considere difícil encontrar uma alternativa. Nas TI, a perceção de empregabilidade pode reduzir o peso que a estabilidade numa determinada organização exerce sobre a decisão de permanecer.

Para as empresas, esta realidade aumenta a importância das condições concretas em que o trabalho é realizado. A retenção de profissionais deixa de depender apenas da progressão profissional ou da relação com a liderança e passa também pela gestão das cargas de trabalho, dos horários e das situações que contribuem para desgaste continuado.

A questão tem consequências operacionais. Uma maior rotação de profissionais especializados pode afetar a continuidade dos projetos, a produtividade das equipas e a capacidade das organizações para responder às necessidades do mercado.

É na relação dos profissionais com a tecnologia e a Inteligência Artificial que o contraste se torna mais evidente.

Cerca de 91% dos trabalhadores de TI afirmam confiar nas competências necessárias para desempenhar a atual função. Outros 85% consideram dispor de oportunidades para desenvolver novas competências e adquirir experiência que lhes permita alcançar os seus objetivos profissionais.

Na utilização de tecnologia, 83% dizem sentir confiança nas próprias capacidades, um resultado 11 pontos percentuais acima da média global. O indicador, no entanto, caiu cinco pontos percentuais em relação ao ano anterior, mostrando que a aceleração tecnológica também está a aumentar a exigência sobre quem trabalha diretamente neste setor.

A mobilidade interna apresenta igualmente resultados elevados. Cerca de 75% dos profissionais consideram existir oportunidades de promoção ou mudança de funções dentro da organização, 13 pontos percentuais acima da média global.

A preparação para a transformação tecnológica e para a Inteligência Artificial coexiste, portanto, com stress elevado, burnout e menor intenção de permanência.

É esta combinação que torna os resultados relevantes para as organizações. As empresas podem disponibilizar formação, mobilidade e oportunidades de progressão e continuar, ainda assim, expostas à saída de profissionais quando a experiência diária de trabalho não acompanha essas condições.

A evolução do setor sugere também que a discussão sobre talento tecnológico está a deslocar-se. Durante anos, grande parte da atenção esteve concentrada na escassez de competências e na necessidade de formar profissionais capazes de acompanhar novas tecnologias. Os números mostram agora uma segunda dimensão do problema: depois de desenvolver essas competências, é necessário criar condições para que os profissionais queiram permanecer.

Num mercado em que os trabalhadores confiam cada vez mais na própria empregabilidade, a retenção passa a depender menos da segurança do posto de trabalho e mais da sustentabilidade da experiência profissional.

A formação contínua continuará a ser um elemento importante à medida que a transformação digital e a Inteligência Artificial alteram funções e competências. Mas os resultados do estudo indicam que essa aposta terá de coexistir com modelos de liderança, desenvolvimento profissional e organização do trabalho capazes de reduzir o desgaste associado à elevada pressão das carreiras tecnológicas.