A incerteza económica, a dificuldade em encontrar profissionais para determinadas funções e as oscilações da atividade estão a alterar a forma como as empresas pensam as suas equipas. A principal mudança está na passagem de uma lógica de recrutamento reativa para um planeamento mais antecipado das necessidades de talento.
Segundo estudos da Adecco, várias organizações começaram nos últimos meses a iniciar processos de recrutamento e reforço de equipas antes de existir uma necessidade imediata. O objetivo passa por diminuir a exposição a períodos de falta de recursos e evitar que uma procura inesperada de profissionais se traduza em perda de produtividade ou dificuldade de resposta.
Esta abordagem representa também uma alteração na forma como a gestão de pessoas é enquadrada dentro das organizações. Durante muito tempo, uma parte relevante das decisões de recrutamento esteve associada à necessidade de preencher posições concretas. Num contexto mais imprevisível, o problema passa a ser outro: perceber antecipadamente que competências e que capacidade operacional poderão ser necessárias.
Para as empresas mais expostas à sazonalidade, à pressão logística, a operações técnicas ou a aumentos rápidos da procura, a disponibilidade de pessoas no momento certo tornou-se uma questão de continuidade operacional.
É neste contexto que cresce, segundo a Adecco, o interesse por modelos de organização mais flexíveis. O trabalho temporário, o outsourcing especializado e as estruturas híbridas de gestão de equipas surgem como formas de ajustar capacidade às necessidades da operação sem obrigar as empresas a manter permanentemente a mesma estrutura.
A flexibilidade, neste caso, não significa apenas aumentar ou reduzir o número de trabalhadores. Implica conseguir reorganizar recursos, incorporar competências específicas e responder a alterações da procura num período mais curto.
Do recrutamento à capacidade de resposta
A evolução descrita pela Adecco coloca uma questão mais ampla para a gestão das empresas. O desafio deixa de estar exclusivamente na capacidade de contratar e passa a incluir a rapidez com que uma organização consegue adaptar a sua estrutura quando as condições mudam.
Lúcia Pereira, Diretora de Marketing da Adecco Portugal, considera que a maior volatilidade está a levar as empresas a adotar uma abordagem mais estratégica à organização das equipas, procurando antecipar necessidades e ganhar capacidade de adaptação sem comprometer produtividade, qualidade ou continuidade da atividade.
O planeamento de talento começa, assim, a cruzar-se diretamente com decisões sobre capacidade produtiva, eficiência e resposta ao mercado.
Esta evolução ajuda também a explicar por que razão algumas empresas procuram combinar diferentes modelos de contratação e gestão de recursos humanos. Uma estrutura exclusivamente orientada para necessidades permanentes pode revelar-se insuficiente quando a procura varia de forma rápida ou quando determinadas competências são necessárias apenas durante períodos específicos.
A questão central passa, por isso, menos pela escolha de um único modelo e mais pela capacidade de ajustar a composição das equipas às condições de cada momento.
A Adecco antecipa que esta procura por maior flexibilidade e planeamento deverá intensificar-se ao longo de 2026. Trata-se de uma perspetiva da própria empresa, mas a tendência que identifica aponta para uma transformação relevante na relação entre gestão de pessoas e gestão do negócio.
Se esta evolução se consolidar, o planeamento das equipas deixará progressivamente de ser tratado apenas como uma função de recursos humanos e passará a fazer parte das decisões sobre crescimento, operação e continuidade das organizações.
Num mercado menos previsível, a diferença poderá estar não apenas em encontrar talento, mas em saber quando será necessário, durante quanto tempo e com que grau de flexibilidade deverá ser integrado na organização.







