Rotas digitais atlânticas a partir de Sines

O evento Atlantic Convergence serviu de palco para debater como a dependência histórica dos pontos de trânsito norte-americanos começa a ceder perante modelos de infraestrutura partilhada entre a Europa, a América Latina e as Caraíbas.
2 de Outubro, 2026

Praticamente todo o tráfego de dados entre a Europa, a América Latina e as Caraíbas era obrigado a passar pela América do Norte, percurso que ainda hoje constitui o padrão para a grande maioria do território caribenho. Este panorama conheceu uma viragem em junho de 2021, data em que o sistema de cabos submarinos EllaLink estabeleceu a primeira ligação direta moderna entre Sines e o Brasil. A concretização deste traçado pioneiro resultou do alinhamento entre a ambição política da União Europeia e do Brasil, apoiada pelo Mecanismo Interligar a Europa para os seus ramais, a mobilização da comunidade científica e de investigação com garantias de capacidade a longo prazo, e o envolvimento de parceiros públicos e privados em cada ponto de amarração.

Esta evolução operacional foi analisada no evento Atlantic Convergence através de um debate alargado com decisores do setor. Conduzido por Vincent Gatineau, representante da EllaLink, o painel juntou Marie-Lucienne Rattier, presidente executiva da SPLANG e responsável pela infraestrutura digital pública da Guiana Francesa, Steven Tjitrotaroeno, administrador comercial da operadora nacional do Suriname, a Telesur, e Rodney Taylor, secretário-geral da União das Telecomunicações das Caraíbas. A discussão evidenciou que a abordagem grossista clássica, dependente de apostas futuras na comercialização simples de capacidade, já não é economicamente sustentável. A contínua descida dos preços por bit e as redes privadas dos grandes fornecedores de nuvem esgotaram o modelo grossista tradicional, tornando premente a adoção de novas parcerias para viabilizar projetos em territórios de menor dimensão.

Para responder a este cenário, a arquitetura de rede evoluiu para o modelo de operador puro de infraestruturas, vocacionado para construir e gerir o sistema, integrando múltiplas ramificações desde o início para abrir acessos regionais. Ao assegurar ramais dedicados e direitos de utilização prolongados no cabo principal, estabelece-se a ligação aos centros de dados centrais europeus, brasileiros e norte-americanos sem competir com as operadoras locais no seu próprio mercado. Este formato dotou a Madeira, Marrocos e Cabo Verde de soluções resilientes, prevendo-se em breve a extensão à Mauritânia e à Guiana Francesa.

O prolongamento desta malha assenta agora no projeto EllaLink Caribbean Gateway, estruturado para interligar os territórios entre Caiena e a Martinica. A aposta de entidades públicas no desenvolvimento de cabos próprios, exemplificada pela iniciativa Lum@link na Guiana Francesa, surge quando a iniciativa comercial privada não supre as carências locais de capacidade e custo. Com o envolvimento ativo de operadoras como a Telesur e a coordenação de políticas promovida pela União das Telecomunicações das Caraíbas, a diversificação de percursos e a redundância de tráfego passaram de requisitos opcionais a prioridades regionais estratégicas, consolidando pontes digitais abertas e seguras a partir do polo atlântico português.

Opinião