Revolut quer transformar a aplicação num assistente financeiro

O lançamento europeu do AIR, incluindo Portugal, mostra até onde a inteligência artificial pode alterar a relação entre clientes e aplicações financeiras. A proposta da Revolut deixa de assentar apenas na consulta e execução de operações para tentar concentrar, numa interface conversacional, decisões sobre despesas, investimentos, viagens e recompensas.
2 de Setembro, 2026

A Revolut começou a disponibilizar na Europa, incluindo em Portugal, o AIR, um assistente de inteligência artificial integrado diretamente na aplicação. O lançamento será feito de forma faseada entre os clientes da empresa, que indica ter atualmente mais de 80 milhões de utilizadores em todo o mundo.

Mais do que acrescentar um chatbot a uma aplicação financeira, a intenção é transformar a inteligência artificial numa nova camada de acesso aos serviços que já fazem parte do ecossistema da Revolut. Em vez de procurar uma determinada função através de menus e diferentes áreas da aplicação, o cliente poderá formular uma pergunta ou indicar aquilo que pretende fazer.

É uma diferença importante. A utilização de IA deixa, neste caso, de estar limitada à resposta a dúvidas e aproxima-se de um modelo em que o assistente passa a interpretar aquilo que o utilizador procura e a encaminhá-lo para a operação correspondente. Perguntar quanto foi gasto em supermercados durante o último mês, gerir subscrições ou bloquear um cartão perdido são alguns dos exemplos apresentados pela empresa.

A mesma lógica é aplicada aos investimentos. O AIR poderá fornecer informação sobre o desempenho de ativos e permitir ao cliente consultar os resultados do próprio portefólio. A aplicação procura, assim, substituir parte da navegação tradicional por uma relação conversacional com a informação financeira do utilizador.

Mas a ambição da Revolut vai para além da gestão de dinheiro. O AIR será também utilizado no planeamento de viagens, permitindo criar itinerários, procurar alojamento, consultar reservas anteriores e relacionar as sugestões com o orçamento disponível. O assistente integra ainda os RevPoints, ajudando a identificar formas de acumular ou utilizar estes pontos em serviços como eSIMs ou acessos a lounges.

Esta combinação ajuda a perceber a dimensão da mudança que a empresa procura introduzir. O objetivo não parece ser apenas tornar mais simples uma aplicação financeira, mas criar um ponto único de interação entre dinheiro, consumo, viagens e programas de fidelização. A inteligência artificial funciona aqui como o elemento que procura ligar serviços que anteriormente exigiam decisões e percursos separados por parte do utilizador.

Há, contudo, uma questão particularmente sensível quando a IA passa a trabalhar diretamente sobre informação financeira individual: a utilização dos dados. A Revolut afirma que o AIR segue as proteções aplicadas ao restante serviço e funciona segundo uma política de retenção zero por parte dos parceiros externos de inteligência artificial. Segundo a empresa, os dados dos clientes não são armazenados por esses parceiros nem utilizados no treino de modelos externos.

A chegada do AIR a Portugal deve, por isso, ser observada para além da introdução de mais uma funcionalidade baseada em inteligência artificial. O que está em causa é uma tentativa de alterar a própria interface entre o utilizador e os serviços financeiros, substituindo progressivamente menus, pesquisas e diferentes etapas por uma conversa capaz de interpretar pedidos e conduzir a operações concretas.

Se esta abordagem ganhar utilização, a questão deixará rapidamente de ser quantas funcionalidades existem dentro de uma aplicação financeira. Passará a ser até que ponto o utilizador precisa de saber onde essas funcionalidades estão.

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