Privacidade dos dados exige provas e não intenções

Quando se fala de privacidade, Mark Molyneux começa por relativizar o ritual anual de rever políticas e promover ações de sensibilização internas. Para o responsável técnico da Commvault na Europa, esses passos continuam a ser necessários, mas já não chegam. A discussão, explica, mudou de “prometer proteção” para “provar controlo”, sobretudo num contexto em que incidentes podem surgir de intrusões externas, erros internos, más configurações ou falhas na cadeia de fornecedores.
29 de Janeiro, 2026

Segundo Molyneux, esta mudança não é apenas perceção. Reflete uma tendência clara no mercado. As previsões da Gartner, que apontam para um aumento significativo de violações de dados associados ao uso inadequado de IA generativa além-fronteiras, são um sinal de alerta. O mesmo acontece com a visão da IDC, que antecipa a generalização de documentação detalhada sobre a origem dos dados e o consentimento associado. Para as organizações, isto significa que a privacidade deixa de ser uma declaração de princípios e passa a ser um conjunto de evidências auditáveis.

Na Europa, recorda, essa exigência é reforçada pelo enquadramento regulatório. Regulamentos como o RGPD, a NIS2 ou a DORA obrigam a demonstrar, e não apenas a afirmar, que existem medidas técnicas e organizativas adequadas. Isso inclui saber quem acede a sistemas críticos, com que permissões, e garantir uma separação clara e monitorizada das contas privilegiadas. Para Molyneux, a mensagem dos reguladores é inequívoca: políticas escritas são importantes, mas a capacidade operacional é decisiva.

É aqui que a conversa deriva naturalmente para a relação entre privacidade e resiliência. Na perspetiva do Field CTO da Commvault, quando estão em causa dados pessoais, qualquer incidente se transforma num evento de confiança. O impacto já não é apenas técnico ou financeiro; é reputacional. As organizações são avaliadas pela forma como respondem, pela rapidez da contenção e pela clareza com que explicam o que aconteceu e como recuperaram.

Questionado sobre como operacionalizar esta abordagem, Molyneux defende a definição prévia de prioridades críticas. Nem todos os dados e sistemas têm o mesmo peso quando há pressão para recuperar. Identificar antecipadamente o que deve ser protegido e restaurado primeiro faz a diferença entre uma resposta controlada e uma reação improvisada. Planos existem em muitas organizações, mas sem testes regulares e sem direitos de decisão claros, raramente resistem a um cenário real.

A identidade surge como um dos pontos mais sensíveis desta equação. Em ambientes cloud, explica, as credenciais comprometidas continuam a ser uma das vias mais rápidas para chegar a dados sensíveis. A resiliência passa por detetar acessos anómalos o mais cedo possível, limitar o alcance do ataque e garantir que a recuperação não reintroduz vulnerabilidades.

Daí a importância da chamada recuperação limpa. Para Molyneux, restaurar sistemas sem validar a sua integridade, sobretudo após ataques de ransomware ou incidentes baseados em identidade, é um risco elevado. As organizações mais preparadas dão prioridade ao isolamento, à análise forense e à verificação rigorosa antes de repor serviços críticos, reduzindo a probabilidade de reinfeção, corrupção de dados ou nova exposição.

A conversa termina com um regresso ao ponto de partida. O Dia da Privacidade dos Dados é, para o responsável da Commvault, um bom pretexto para testar a maturidade real das organizações. Se um incidente acontecesse amanhã, seria possível conter o impacto, recuperar de forma limpa e demonstrar controlo com confiança? Para quem trata a recuperação como parte integrante da privacidade, a resposta tende a ser mais clara, tanto para os reguladores como para clientes e parceiros.

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