Ivo Ivanov, CEO da DE-CIX

“Portugal tem de criar valor digital”

Para Ivo Ivanov, a soberania digital não passa pelo isolamento, mas pela capacidade de escolha e pela existência de uma infraestrutura de interligação aberta e neutra. E deixa um alerta particularmente relevante para Portugal: cabos e data centers podem transformar o país num importante ponto de passagem de dados, mas só uma economia digital integrada poderá garantir que uma parte significativa do valor fica no território.
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A corrida à Inteligência Artificial está a colocar a infraestrutura digital no centro da competitividade económica. Data centers, cabos submarinos, capacidade de computação e redes de baixa latência estão a redesenhar o mapa digital europeu e a Península Ibérica procura afirmar-se neste novo contexto.

É neste cenário que decorre, entre 29 de setembro e 1 de outubro, no Porto da Galé, em Lisboa, a Atlantic Convergence, iniciativa que reúne responsáveis políticos, operadores de telecomunicações, empresas de cloud, investidores e outros protagonistas do ecossistema digital para discutir o futuro das infraestruturas que suportam a economia digital e a Inteligência Artificial.

Ivo Ivanov, CEO da DE-CIX, é um dos intervenientes neste debate. Em entrevista ao Digital Inside, defende que Portugal parte de uma posição estratégica, mas que a infraestrutura, por si só, não chega. O verdadeiro desafio está em transformar a capacidade instalada em inovação, investimento, novas empresas e serviços digitais com origem na economia local.

Esta conversa aborda ainda o impacto das redes no desempenho da IA, o crescimento dos data centers na Península Ibérica, o papel de Sines e Lisboa e a possibilidade de a região evoluir para uma “Capital Digital Distribuída”, capaz de ligar Europa, África e Américas.

Quais são as expetativas para esta edição do Atlantic Convergence? 

A partir do impulso das edições anteriores, o nosso objetivo é transformar o diálogo em colaboração concreta. A Atlantic Convergence reúne decisores políticos, plataformas de cloud, investidores, operadores de rede, prestadores de serviços de data centers e outros atores de infraestruturas para discutir como construímos a infraestrutura segura e sustentável necessária para a economia de IA. 

Em última análise, queremos fortalecer Lisboa e o corredor Atlântico mais amplo como uma porta de entrada digital resiliente e neutra que liga a Europa, a África e as Américas, ao mesmo tempo que se criam simultaneamente as condições para novas parcerias, oportunidades de investimento e iniciativas conjuntas.

A Europa tem vindo a falar de soberania digital há anos, mas continua profundamente dependente da tecnologia dos EUA. Estamos a assistir a uma verdadeira estratégia europeia ou trata-se apenas de retórica política que até agora não conseguiu alterar as dependências estruturais?

A soberania digital é muitas vezes mal compreendida como uma questão de saber onde os dados são armazenados ou onde os data centers estão localizados. A infraestrutura e a capacidade de processamento são partes importantes da equação, mas a soberania também é sobre ter escolha, controlo e resiliência em todo o ecossistema digital. 

Numa perspetiva da interligação, o que importa é dar às organizações a capacidade de decidir onde os seus dados são processados, que prestadores de serviços utilizam, que rotas percorrem os dados e com que facilidade se podem ligar a diferentes ambientes de cloud e de IA. O objetivo não deve ser o isolamento tecnológico, mas sim criar uma maior flexibilidade e evitar dependências desnecessárias de qualquer fornecedor ou ecossistema único. 

É aqui que a interligação neutra pode ter uma contribuição concreta. Ao permitir que as organizações se liguem de forma segura e direta a múltiplas clouds, plataformas de IA, redes e prestadores de serviços, a interligação pode suportar um maior controlo, escolha e resiliência nas suas arquiteturas digitais.

Afirmou recentemente que a Inteligência Artificial passa “um terço do seu tempo à espera da rede”. Estamos a investir milhares de milhões em chips e data centers enquanto subestimamos a infraestrutura que os liga a todos?

Estudos da indústria mostram que as cargas de trabalho de IA podem passar uma parte significativa do tempo de processamento à espera de comunicação da rede. Isto revela um ponto importante: adicionar mais GPUs por si só não consegue libertar todo o potencial da IA se a rede que conecta o processamento, os dados e as aplicações se tornarem num constrangimento. 

Ao contrário do tráfego web tradicional, as cargas de trabalho de IA em grande escala exigem que volumes enormes de dados se movam entre recursos computacionais com latência extremamente baixa. E à medida que a IA se expande do treino de modelos para a inferência em tempo real através de diferentes aplicações e localizações, o desempenho da rede torna-se cada vez mais importante. 

É por isso que a interligação precisa de ser considerada uma parte fundamental da infraestrutura de IA. Na DE-CIX, o nosso Ponto de Troca de Tráfego de IA (AI Internet Exchange – AI-IX) já reúne mais de 50 redes relevantes para IA e mais de 160 on-ramps cloud a nível global, suportando conetividade segura e de baixa latência para cargas de trabalho de IA. Olhando para o futuro, tecnologias emergentes como o Ultra Ethernet irão suportar ainda mais o desenvolvimento de arquiteturas de IA distribuídas por múltiplas localizações.

Portugal tem cabos submarinos, uma localização atlântica e projetos de data centers—com maior destaque em Sines. Ter infraestruturas é suficiente? O que falta ao país para deixar de ser apenas um território de trânsito de dados e começar verdadeiramente a captar valor económico?

A infraestrutura é essencial mas a infraestrutura por si só não cria uma economia digital. Um país pode acolher cabos submarinos e data centers e continuar a ser maioritariamente um ponto de trânsito se o ecossistema digital mais amplo não se desenvolver em paralelo. 

O grande desafio é passar de um país de acolhimento para um país de inovação. Isto significa garantir que as empresas locais, universidades, start-ups, instituições de investigação e organizações do setor público conseguem aceder e utilizar a infraestrutura digital que está a ser implementada. O sucesso não deve ser medido apenas em amarrações de cabos ou megawatts instalados, mas sim em novas empresas criadas, inovação gerada, competências desenvolvidas e serviços digitais exportados. 

A interligação desempenha um papel importante ao possibilitar esta transição. Os data centers e os cabos submarinos criam capacidade, mas os ecossistemas de interligação neutros criam acessibilidade. Permitem que as empresas locais se liguem diretamente a plataformas de cloud, serviços de IA, redes e mercados digitais com baixa latência e elevada resiliência. Quanto mais profundamente a infraestrutura digital estiver ligada à economia doméstica, maior será a oportunidade para Portugal captar valor económico a longo prazo, em vez de simplesmente acolher fluxos de tráfego internacionais.

Existe um paradoxo no mercado ibérico: o investimento em data centers e conetividade está a crescer, mas a adoção de cloud e Inteligência Artificial pelas empresas locais continua abaixo da média europeia. Corremos o risco de construir uma infraestrutura digital massiva que serve sobretudo empresas e mercados fora da Península?

Devemos fazer uma distinção entre um “país de acolhimento” que meramente proporciona terreno e energia, e um “país de inovação” que liga a infraestrutura digital diretamente ao resto da sua economia doméstica. Embora os investimentos em data centers de grande escala (hyperscale) e cabos submarinos tragam uma capacidade imensa e visibilidade global, uma região arrisca-se a atuar primariamente como um território de trânsito ou uma espécie de senhorio digital para mercados externos se as pequenas e médias empresas (PMEs) locais, universidades, start-ups e instituições públicas não conseguirem aceder ou adotar estes recursos computacionais. 

Para o evitar e captar valor económico real, os investimentos em infraestrutura devem ser acompanhados por esforços ativos para desenvolver competências digitais locais, fomentar parcerias de investigação, apoiar o acesso a investimento e financiamento, e disponibilizar o acesso acessível a ferramentas de cloud e IA, para que as empresas domésticas possam transformar a capacidade infraestrutural existente em propriedade intelectual local, novos produtos e valor recorrente. 

A interligação serve como a ponte arquitetónica essencial que liga a infraestrutura física à adoção pelas empresas locais e ao crescimento económico. Enquanto os hyperscalers internacionais e as estações de amarração de cabos lidam com fluxos massivos de dados intercontinentais, as empresas domésticas, os ISPs regionais e as plataformas locais normalmente não estão alojadas dentro de instalações de grande escala, recorrendo em vez disso a ambientes neutros e partilhados (multi-tenant) para trocar dados de forma direta e eficiente. 

Ao tirar partir Pontos de Troca de Tráfego neutros como a DE-CIX, as empresas locais obtêm acesso direto e de baixa latência a on-ramps globais de cloud e plataformas de IA múltiplas, reduzindo as barreiras técnicas e financeiras que dificultam a adoção de cloud e IA. Ligar as empresas domésticas diretamente a este ecossistema distribuído garante que as autoestradas internacionais de dados não passam simplesmente pela Península, mas que, em vez disso, são a âncora de uma economia digital próspera, competitiva e resiliente que serve os negócios locais e impulsiona a competitividade regional.

Se voltarmos a ter esta conversa daqui a dez anos, o que terá de acontecer para podermos dizer que Portugal e a Península Ibérica deixaram definitivamente de ser a periferia digital da Europa e se tornaram uma das suas potências tecnológicas?

Daqui a dez anos, o sucesso não será definido apenas pelo número de data centers, cabos submarinos ou anúncios de infraestrutura. Será definido pelo facto de Portugal e a Península Ibérica em geral terem transformado estes ativos num ecossistema digital próspero que impulsiona a inovação, atrai investimento e permite às empresas locais competir globalmente. 

Para alcançar isso, Portugal e a Península Ibérica precisam de consolidar ainda mais o que descrevemos como uma Capital Digital Distribuída: um sistema interligado de centros digitais, incluindo Lisboa, Madrid, Barcelona e localizações emergentes como Sines, que operam em conjunto como um hub digital resiliente e de relevância global. A força da região não virá de uma única cidade, mas da forma como estas localizações se complementam através da conetividade, interligação, infraestrutura de cloud, capacidade de IA e corredores digitais internacionais. 

Se isto for bem-sucedido, veremos os benefícios estenderem-se muito além do próprio setor de infraestruturas, com mais inovação local, ecossistemas de investigação mais fortes, maior adoção de IA, empresas mais competitivas a nível global e um papel de maior destaque para a Península Ibérica na ligação entre a Europa, África e as Américas. A Península Ibérica será então reconhecida não apenas como um local por onde os dados passam, mas como um local onde o valor digital é criado – como uma das principais potências digitais da Europa.

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