Portugal não resolverá a falta de talento tecnológico sem formar mais mulheres

O .PT abriu candidaturas ao programa Geração STEM .PT, que vai atribuir bolsas de 5.000 euros a estudantes do ensino superior em áreas tecnológicas e de engenharia com menor representação feminina. A iniciativa surge num contexto em que apenas 22% dos especialistas portugueses em Tecnologias de Informação e Comunicação são mulheres.
15 de Setembro, 2026

O .PT quer aumentar a presença feminina nas áreas tecnológicas mais especializadas e, para isso, lançou um programa de bolsas destinado a estudantes de licenciatura e mestrado em Portugal. As candidaturas ao Geração STEM .PT decorrem até 9 de outubro e cada estudante selecionada receberá 5.000 euros para apoiar despesas relacionadas com a formação.

O programa procura atuar numa fase anterior à entrada no mercado de trabalho, num momento em que se começa a definir a futura disponibilidade de talento tecnológico no país.

O problema é visível nos números apresentados pelo .PT. Mais de metade da população portuguesa possui competências digitais básicas, segundo os dados do Índice de Economia e Sociedade Digital citados pela entidade. Mas apenas 5,4% são especialistas em Tecnologias de Informação e Comunicação e, dentro desse grupo, somente 22% são mulheres. Portugal perde, portanto, participação feminina precisamente quando as competências tecnológicas se tornam mais especializadas e mais difíceis de encontrar. É uma diferença relevante num mercado em que empresas e organismos públicos dependem cada vez mais de profissionais capazes de desenvolver software, gerir infraestruturas digitais, proteger sistemas ou trabalhar com tecnologias emergentes.

A escassez de talento tecnológico é muitas vezes tratada como um problema de recrutamento. Os números apresentados pelo .PT mostram que também é um problema de formação. Uma empresa não consegue contratar competências que o sistema educativo não produziu em número suficiente.

Podem candidatar-se ao programa estudantes do género feminino com nacionalidade de qualquer país europeu ou titulares de um título de residência válido, desde que estejam matriculadas em licenciaturas ou mestrados de instituições de ensino superior portuguesas e em áreas onde exista sub-representação feminina.

Para Luisa Ribeiro Lopes, presidente do Conselho Diretivo do .PT, aumentar a presença feminina nestas áreas está diretamente relacionado com temas como soberania digital, cibersegurança e inovação. A lógica é simples: se metade da população estiver pouco representada nas profissões onde se constrói e gere tecnologia, a dimensão do conjunto de talento disponível para a economia será necessariamente menor.

Aumentar o número de mulheres nas áreas STEM deixa assim de ser apenas uma questão de representação. É também uma questão de capacidade tecnológica e competitividade.

O programa conta nesta primeira edição com o apoio da Huawei, NTT Data e REN. A seleção será realizada por um júri composto por representantes da academia, empresas e sociedade civil, entre os quais Luisa Ribeiro Lopes, Rosa Monteiro, Cláudia Mendes Silva, Carla Bernardo e Diogo Madeira da Silva.

As candidaturas decorrem até 9 de outubro, estando o regulamento e o formulário disponíveis no site oficial do programa. As estudantes selecionadas serão anunciadas numa cerimónia prevista para o final de novembro.

Uma bolsa isolada não resolve a escassez de competências tecnológicas. Mas a questão que o programa coloca é mais ampla. Portugal dificilmente resolverá a falta de talento especializado enquanto continuar a formar tão poucas mulheres para algumas das funções de que a sua economia digital mais depende.

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