A Inteligência Artificial já não chega às empresas apenas pela porta dos departamentos de inovação. Está a entrar nos processos, nas plataformas tecnológicas e, progressivamente, nas decisões de gestão. É neste momento de transição que o Portugal Digital Summit 2026 regressa ao Centro de Congressos de Lisboa, organizado pela Associação de Economia Digital (ACEPI), em parceria com a GoingNext, colocando este ano os agentes de IA no centro da discussão.
Sob o mote “A Era dos Agentes da IA”, o encontro procura discutir aquilo que começa a ser uma questão menos tecnológica do que empresarial: até onde podem as organizações entregar tarefas a sistemas capazes de agir com maior autonomia e, sobretudo, como fazê-lo sem perder controlo sobre segurança, transparência e responsabilidade. A discussão sobre IA está, assim, a deslocar-se da capacidade dos modelos para a forma como estes podem ser integrados na operação real das empresas.
Essa mudança acontece num contexto particularmente sensível na Europa. Novas obrigações do Regulamento Europeu da IA estão em vigor desde agosto, aproximando duas agendas que durante algum tempo avançaram a velocidades diferentes. De um lado está a pressão para utilizar IA na procura de produtividade e novos negócios. Do outro surgem exigências relacionadas com confiança, responsabilidade e segurança. Para os gestores, e particularmente para quem decide sobre tecnologia, o desafio passa precisamente por encontrar um ponto de equilíbrio entre estas duas forças.
A composição do programa traduz essa preocupação. Adolfo Mesquita Nunes, Country Co-Chair e Partner da Pérez-Llorca e antigo secretário de Estado do Turismo, levará ao encontro a dimensão regulatória e os desafios colocados às empresas pela velocidade da evolução tecnológica. Assunção Cristas, Sócia Co-Responsável pela área de ambiente e clima da Vieira de Almeida, deverá aproximar o debate da sustentabilidade e da forma como tecnologia, inovação e competitividade passam a fazer parte da mesma equação empresarial.
A tecnologia, porém, só se transforma em estratégia quando encontra aplicações concretas. Inês Ruvina, Country Leader da Amazon, abordará precisamente a utilização da Inteligência Artificial na transformação dos negócios e o potencial dos agentes para aumentar a produtividade e abrir novas oportunidades. É nesta passagem da demonstração tecnológica para processos capazes de produzir resultados que se joga uma parte relevante da próxima fase de adoção da IA pelas empresas.
Mas aumentar a autonomia dos sistemas também aumenta a importância das regras que determinam aquilo que esses sistemas podem fazer. Paulo Dimas, principal coordenador do Center for Responsible AI e CEO da Halo NeuroAI, levará ao Summit a discussão sobre ética, segurança, transparência e confiança. São dimensões que deixam de ser questões periféricas quando os sistemas de IA passam de ferramentas utilizadas por pessoas para tecnologias capazes de executar tarefas e participar de forma mais direta nos processos das organizações.
Há ainda uma componente mais física nesta transformação que tende a desaparecer por detrás da abstração da IA: a infraestrutura. Javier Pemán, responsável pela área de AI e High Performance Computing da NVIDIA para Espanha, Portugal e Médio Oriente, abordará a capacidade computacional necessária para suportar esta nova geração de aplicações. Quanto maior for a utilização de agentes de IA dentro das organizações, mais relevantes se tornam a capacidade de computação, o acesso à tecnologia e a infraestrutura necessária para escalar esses sistemas.
Vistos em conjunto, estes temas revelam uma mudança interessante na conversa sobre Inteligência Artificial. O debate já não está concentrado apenas no que a tecnologia consegue fazer. Passa também por saber quanto custa colocá-la a funcionar, quais as infraestruturas necessárias, que riscos introduz, quem responde pelas suas decisões e onde pode efetivamente gerar valor para uma organização. Para os CIO e responsáveis por compras tecnológicas, é provavelmente nesta intersecção entre tecnologia, negócio e controlo que estará uma parte importante das decisões dos próximos anos.
Os cinco novos oradores juntam-se a nomes já anunciados, entre os quais Steve Cadigan, Zoltan Istvan e Brad Shuck, num programa que reunirá mais de 150 especialistas e responsáveis empresariais. A edição deste ano acrescenta ainda o palco “Future of Brand and Media in the Age of AI”, dedicado ao impacto da Inteligência Artificial na comunicação, no marketing e na relação entre marcas, meios de comunicação e consumidores.
O Portugal Digital Summit 2026 acaba, assim, por refletir uma mudança mais ampla no próprio discurso empresarial sobre IA. A questão deixou progressivamente de ser se as empresas vão utilizar Inteligência Artificial e começa a ser como a vão integrar, governar e transformar em resultados sem perder confiança e controlo. É nesse território, situado entre a promessa tecnológica e a gestão quotidiana, que os agentes de IA terão agora de provar o seu valor.







