A pressão criada pela inteligência artificial sobre a infraestrutura tecnológica começa a tornar-se mais visível fora dos grandes projetos de centros de dados. A OVH vai aumentar os preços dos seus servidores para clientes novos e atuais, justificando a decisão com a subida dos custos de componentes como memória RAM e armazenamento, cuja procura tem sido impulsionada pela expansão da infraestrutura necessária aos sistemas de IA.
A mudança tem impacto particular numa empresa cujo posicionamento assenta numa oferta de servidores dedicados, conhecidos no setor como bare metal, e serviços de cloud pública com preços competitivos. Para os responsáveis de TI, a questão relevante não está apenas na dimensão dos aumentos anunciados, mas no facto de a inflação dos componentes começar a ser transferida diretamente para o custo da infraestrutura contratada pelas empresas.
A OVH tem procurado gerir esta pressão através do planeamento das encomendas de equipamento ao longo de períodos de 12 meses. Segundo a explicação apresentada pelo presidente da empresa, Octave Klaba, esta gestão obriga a decidir mensalmente os volumes de compra sem conhecer antecipadamente o preço final dos componentes nem conseguir prever com exatidão a procura futura dos clientes.
Esta incerteza torna particularmente difícil manter preços estáveis num negócio intensivo em hardware. A empresa sustenta que continuará a apresentar preços inferiores aos concorrentes nos segmentos de bare metal e cloud pública, embora reconheça que a diferença existente anteriormente deverá diminuir caso os restantes fornecedores mantenham as atuais tabelas de preços.
Para as empresas, os aumentos mais relevantes surgem nos sistemas de maior capacidade. Os servidores High Grade mais recentes da OVH vão ficar 59% mais caros, enquanto os modelos baseados nas especificações de 2024 terão um aumento de 26%. Estes sistemas podem integrar até dois processadores AMD EPYC da série 9005 com 96 núcleos cada, suportar 36 discos por servidor e utilizar sistemas de refrigeração destinados a configurações de elevada densidade.
A subida não fica limitada ao topo da gama. Nos servidores de menor desempenho, os modelos mais recentes terão aumentos entre 40% e 49%, enquanto equipamentos de gerações anteriores ficarão entre 26% e 37% mais caros.
Os servidores destinados a gaming registam a variação mais elevada. Os modelos mais recentes terão aumentos de 87%, embora as versões mais antigas não sejam abrangidas. Para o mercado empresarial, porém, a amplitude das alterações nas gamas High Grade e nos sistemas de menor capacidade mostra que o impacto não está concentrado num nicho específico da oferta.
Os novos preços entram em vigor a 1 de setembro para novas encomendas e a 1 de outubro para as renovações dos contratos existentes. Os compromissos atualmente em vigor manterão as condições acordadas até ao momento da respetiva renovação.
A OVH criou, ainda assim, uma possibilidade de proteção temporária contra os aumentos. Os clientes atuais poderão manter os preços em vigor nos servidores que já se encontram em produção durante um período máximo de quatro anos, desde que efetuem o pagamento antecipado até 1 de outubro.
A decisão introduz uma escolha financeira que os responsáveis de infraestrutura terão de ponderar entre previsibilidade de custos e compromisso de capital por vários anos. Dentro dos limites apresentados pela empresa, bloquear o preço reduz a exposição a futuras subidas, mas implica antecipar despesa e assumir por um período longo uma determinada configuração de infraestrutura.
O preço base dos servidores é apenas uma parte da alteração. A memória e o armazenamento adicionais também estão a ficar mais caros. Desde 1 de julho, nas novas encomendas, o preço da RAM adicional aumentou 127% e o dos discos subiu 89%.
A partir de 1 de outubro, os aumentos chegam igualmente às renovações. Nos servidores mais recentes, a memória adicional ficará 40% mais cara e os discos de maior capacidade terão um aumento de 15%. Nos equipamentos construídos segundo as especificações de 2024, as subidas serão de 20% para a RAM e 10% para os discos.
O detalhe é importante para quem dimensiona infraestrutura empresarial. Uma subida relativamente controlada no preço de um servidor pode tornar-se mais significativa quando a configuração exige grandes quantidades de memória ou armazenamento, precisamente dois recursos particularmente relevantes em cargas de trabalho intensivas em dados.
Na cloud pública, a alteração será menos linear. Em vez de aplicar simplesmente uma subida transversal, a OVH vai começar a separar alguns recursos que até agora estavam incorporados no preço das instâncias.
A partir de 1 de outubro, o armazenamento de blocos de baixa latência e os endereços IPv4 deixarão de estar incluídos em determinadas instâncias Gen3 e passarão a surgir como componentes faturados separadamente. A empresa permitirá também combinar de forma mais flexível capacidade de armazenamento e computação.
Na prática, o preço horário da capacidade de processamento poderá parecer inalterado, mas o custo total do serviço passará a depender mais dos recursos adicionais utilizados. Segundo os cálculos apresentados pela OVH, esta alteração traduz-se em aumentos que podem variar entre 1,4% nas instâncias de maior capacidade e 21,9% nas configurações mais pequenas.
Esta separação torna também mais importante olhar para a fatura de cloud como um conjunto de componentes e não apenas para o preço anunciado de uma instância. Para os clientes empresariais, a comparação entre fornecedores passa necessariamente pelo custo total da configuração utilizada, incluindo computação, armazenamento e endereçamento de rede.
A política de compromissos de longo prazo mantém-se parcialmente. A OVH continuará a aplicar um desconto de 15% aos clientes que assumam um compromisso de um ano e de 30% nos contratos de três anos. Os descontos associados a períodos mais curtos deixam, contudo, de existir.
O conjunto das alterações expõe uma realidade que começa a ganhar peso nas decisões de infraestrutura, mesmo quem não está a comprar diretamente sistemas de inteligência artificial pode acabar por suportar parte da pressão que essa procura exerce sobre a cadeia de fornecimento. Na OVH, essa pressão traduz-se agora em memória, armazenamento e servidores mais caros — e numa estrutura de preços que obriga as empresas a olhar com maior atenção para a composição efetiva dos seus custos de cloud.







