A Internet teve uma semana aparentemente mais tranquila entre 3 e 9 de agosto. A ThousandEyes, empresa da Cisco que acompanha o desempenho de fornecedores de Internet, cloud, aplicações e serviços de infraestrutura de rede, registou 502 interrupções a nível mundial, menos 2% do que as 514 contabilizadas na semana anterior. Nos Estados Unidos, onde se concentraram 358 ocorrências, a descida foi igualmente de 2%.
A descida do número total de interrupções, contudo, esconde uma alteração significativa na origem dos problemas. Enquanto as redes de cloud pública melhoraram, os fornecedores de acesso e trânsito de Internet seguiram na direção contrária. Globalmente, as interrupções em ISP aumentaram de 222 para 254, uma subida de 14%. Nos Estados Unidos, o movimento foi bastante mais pronunciado, com o número de ocorrências a passar de 124 para 175, um crescimento de 41%.
Nas redes de cloud pública aconteceu precisamente o inverso. As falhas diminuíram de 204 para 165 em todo o mundo, uma redução de 19%, enquanto nos Estados Unidos passaram de 192 para 144, menos 25%. As aplicações de colaboração mantiveram-se, entretanto, fora das estatísticas de indisponibilidade, sem qualquer interrupção registada durante a semana.
A leitura dos números exige, no entanto, alguma cautela quando se procura perceber a situação europeia. A informação semanal divulgada pela ThousandEyes apresenta uma comparação entre o total mundial e os Estados Unidos, mas não fornece uma contabilização autónoma das interrupções registadas na Europa. Dos 502 incidentes globais, 358 ocorreram nos Estados Unidos, deixando 144 eventos distribuídos pelo conjunto dos restantes mercados mundiais. Esse valor não pode, por isso, ser utilizado como indicador da situação europeia.
A ausência desse recorte não significa que a ThousandEyes não consiga observar a Europa. A infraestrutura da empresa recolhe informação a partir de pontos distribuídos internacionalmente e as suas ferramentas permitem analisar geograficamente problemas de conectividade e disponibilidade. O que não está disponível no relatório público desta semana é um agregado europeu diretamente comparável com os números apresentados para os Estados Unidos.
Também os dois incidentes considerados mais relevantes no período não tiveram a Europa como centro. A 6 de agosto, a Cogent Communications sofreu uma interrupção que afetou vários fornecedores e clientes nos Estados Unidos. Os problemas foram inicialmente identificados por volta das 12h40, hora da costa leste norte-americana, e concentraram-se em nós de rede localizados em Chicago. Cerca de 20 minutos depois, aumentou o número de equipamentos com dificuldades de ligação, um movimento que coincidiu com o crescimento do número de parceiros afetados. A indisponibilidade acumulou 32 minutos ao longo de aproximadamente uma hora.
Um dia antes, a 5 de agosto, o Zayo Group tinha registado outro incidente com impacto nos Estados Unidos e no Canadá. Neste caso, os problemas surgiram em nós localizados em Seattle e prolongaram-se durante 17 minutos num período total de cerca de 40 minutos. À medida que aumentava o número de nós com dificuldades de ligação, crescia também o conjunto de clientes e parceiros afetados.
O facto de não surgir uma grande interrupção europeia entre os incidentes destacados não deve ser interpretado como ausência de falhas na região. Significa apenas que, no relatório referente a esta semana, a ThousandEyes não publicou um agregado europeu nem colocou um incidente centrado na Europa entre os casos considerados mais relevantes.
A fotografia semanal mostra, assim, porque é que olhar apenas para o número agregado de incidentes pode ser enganador. A infraestrutura global registou menos interrupções, mas uma parcela maior dos problemas deslocou-se para as redes que asseguram a circulação do tráfego entre operadores, empresas e serviços digitais. Para quem gere infraestruturas empresariais, esta diferença é relevante: um serviço cloud pode estar operacional e, ainda assim, tornar-se inacessível ou apresentar degradação se existirem problemas nos caminhos de rede utilizados para lá chegar.
Os dados das últimas semanas mostram igualmente que a disponibilidade da Internet não evolui de forma linear. Entre 20 e 26 de julho tinham sido contabilizadas 610 interrupções globais. Na semana seguinte, entre 27 de julho e 2 de agosto, esse número caiu para 514, uma redução de 16%. Na semana agora analisada voltou a descer, mas apenas 2%, para 502 ocorrências.
Mais relevante é a mudança interna desses números. Entre 27 de julho e 2 de agosto, as interrupções nos ISP tinham diminuído 19% a nível mundial, de 273 para 222. Uma semana depois, inverteram novamente a trajetória e subiram para 254. Já as falhas na cloud pública mantiveram a tendência descendente: passaram de 244 para 204 e, posteriormente, para 165.
Para os responsáveis empresariais por redes, cloud e continuidade de negócio, esta oscilação ajuda a colocar o problema da disponibilidade numa perspetiva mais ampla. A dependência digital não termina no centro de dados ou no fornecedor de cloud escolhido pela organização. Entre o utilizador e uma aplicação empresarial existem diferentes redes, operadores e pontos de interligação, e basta que uma parte desse percurso apresente problemas para que o serviço final seja afetado.
A semana terminou com menos interrupções globais, mas não necessariamente com uma Internet menos vulnerável. Os números sugerem sobretudo uma redistribuição dos incidentes entre diferentes camadas da infraestrutura e recordam que medir disponibilidade exige olhar para todo o caminho percorrido pelos serviços digitais, e não apenas para a plataforma onde estão alojados.







