A generalização da inteligência artificial nas empresas está a colocar uma questão cada vez mais difícil aos responsáveis tecnológicos. Não basta introduzir novos modelos e ferramentas se a infraestrutura sobre a qual estes funcionam continua dependente de aplicações antigas, processos manuais e arquiteturas que foram construídas para uma realidade tecnológica diferente.
É neste contexto que a Kyndryl apresenta os serviços Agentic Modernization as-a-Software, assentes no Kyndryl Agentic AI Framework e operacionalizados através da plataforma Kyndryl Bridge. A proposta procura aplicar agentes de IA a diferentes etapas da modernização tecnológica, transformando conhecimento de engenharia e processos anteriormente dependentes de intervenção especializada em fluxos de trabalho reutilizáveis.
A principal mudança proposta está na passagem de grandes projetos de modernização executados de forma pontual para um processo mais contínuo, automatizado e integrado nas operações de TI.
O conceito de services-as-software utilizado pela empresa traduz essa transformação. Em vez de depender exclusivamente de equipas que executam sucessivamente tarefas de análise, desenvolvimento, migração e validação, parte dessas atividades passa a ser coordenada através de software e agentes autónomos.
Os fluxos de trabalho apresentados pela Kyndryl podem abranger a descoberta de ambientes tecnológicos, análise de código, identificação de dependências, desenho da arquitetura de destino, geração de código, testes e validação. O objetivo é reduzir o trabalho repetitivo e tornar os processos de modernização mais previsíveis e reutilizáveis.
A oportunidade é particularmente relevante perante a diferença entre adoção tecnológica e retorno efetivo do investimento. Num estudo da própria Kyndryl realizado junto de 1.100 responsáveis empresariais e tecnológicos, 77% dos executivos afirmaram já ter expandido a utilização de IA generativa a várias áreas das suas organizações, mas apenas 32% disseram ter alcançado um dos resultados que consideravam prioritários.
Os números expõem uma diferença significativa entre conseguir colocar IA dentro das organizações e conseguir transformar essa adoção em resultados empresariais.
Parte do problema encontra-se nas infraestruturas existentes. Sistemas de missão crítica, aplicações desenvolvidas ao longo de décadas e ambientes tecnológicos distribuídos continuam a suportar processos essenciais de muitas organizações. Modernizar esses sistemas exige compreender dependências, preservar conhecimento acumulado e evitar interrupções das operações.
É precisamente nesta área que a Kyndryl procura posicionar a sua abordagem. Os novos serviços recorrem à Kyndryl Bridge, plataforma lançada em 2022 e utilizada, segundo a empresa, para gerir e modernizar ambientes tecnológicos de mais de 1.400 clientes. A Kyndryl afirma que a plataforma produz mais de 16 milhões de insights baseados em IA por mês e que a sua utilização permitiu reduções de até 50% nos incidentes de TI.
A plataforma inclui ainda mecanismos para acompanhar custos, segurança e conformidade, bem como capacidades de gestão de memória dos agentes. Esta última componente procura preservar contexto operacional e conhecimento institucional durante processos que podem prolongar-se no tempo.
A questão do controlo assume particular importância neste modelo. A automatização de tarefas através de agentes não elimina a intervenção de especialistas ou das próprias equipas das organizações. A arquitetura apresentada mantém supervisão humana sobre os processos, incluindo responsabilidades de governação e validação.
A proposta não é retirar os especialistas do processo de modernização, mas deslocar parte do trabalho operacional para agentes de IA mantendo controlo, supervisão e responsabilização humanas.
Esta combinação é relevante porque a modernização de sistemas de missão crítica não é apenas um problema de velocidade. Quanto maior for a autonomia atribuída aos agentes, maior passa também a ser a necessidade de assegurar que decisões, alterações de código e mudanças de arquitetura continuam enquadradas pelas políticas técnicas e empresariais da organização.
A Kyndryl argumenta igualmente que a abordagem permite integrar novos modelos e ferramentas de inteligência artificial à medida que surgem, escolhendo-os de acordo com critérios como desempenho, custos, governação e necessidades de negócio, evitando a dependência de uma única plataforma tecnológica.
Para empresas com grandes ambientes legados, outro fator é a disponibilidade de competências. Os fluxos pré-configurados procuram reduzir a dependência de especialistas necessários para executar tarefas repetitivas de modernização, sem eliminar a necessidade do seu conhecimento para orientar e validar o processo.
Os casos apresentados pela empresa mostram aplicações desta lógica em diferentes setores. Numa empresa internacional de aluguer automóvel, agentes estão a ser utilizados para refatorar código legado. Numa resseguradora com um ambiente mainframe acumulado ao longo de décadas e milhões de linhas de código, a tecnologia foi aplicada na análise e transformação desse sistema, tendo a Kyndryl indicado uma redução de 50% no prazo previsto para abandonar os centros de dados existentes. Uma organização internacional de serviços financeiros está também a utilizar a abordagem nas suas equipas de engenharia.
Estes exemplos ilustram sobretudo a direção em que a Kyndryl pretende levar o modelo tradicional de serviços tecnológicos. Em vez de a IA surgir apenas como mais uma ferramenta adicionada ao processo de transformação, passa a participar na própria execução desse processo.
Se esta abordagem se consolidar, a modernização tecnológica deixará progressivamente de ser tratada como um projeto com princípio e fim e aproximar-se-á de uma função permanente das operações de TI.
É provavelmente nessa mudança que reside a parte mais relevante do anúncio. A pressão para introduzir inteligência artificial está a aumentar precisamente numa altura em que muitas empresas ainda carregam décadas de tecnologia acumulada. A promessa dos agentes não está apenas em acrescentar uma nova camada de automação, mas em ajudar a resolver a infraestrutura que condiciona a utilização dessa mesma IA.
A capacidade de o fazer de forma consistente dependerá, contudo, do equilíbrio entre automação e controlo humano que a própria Kyndryl coloca no centro da sua proposta. Num ambiente empresarial, modernizar mais depressa só representa uma vantagem se segurança, custos, conformidade e continuidade operacional permanecerem sob controlo.







