Jensen Huang traça o futuro dos negócios na era pós-IA no Viva Tech 2025

No Viva Tech 2025, em Paris, Jensen Huang, CEO da Nvidia, traçou o próximo ciclo da revolução digital, apostando na computação quântica, fábricas de inteligência artificial e robótica acessível como os novos pilares estratégicos para o crescimento empresarial.
12 de Junho, 2025
Jensen Huang, CEO da Nvidia, no Viva Tech 2025, em Paris

Na sua intervenção de ontem no Viva Tech 2025, em Paris, Jensen Huang, CEO da Nvidia, voltou a fazer aquilo que melhor sabe: redesenhar o mapa da próxima fronteira tecnológica com implicações profundas para o mundo empresarial. Com um discurso estrategicamente dirigido aos líderes de indústria, Huang apontou a computação quântica, a inteligência artificial argêntica e os centros de dados de nova geração — as chamadas fábricas de IA — como pilares do que designa de “quarta revolução industrial”.

“Cada país, cada sociedade, cada empresa dependerá de uma infraestrutura de inteligência”, declarou, numa referência direta à necessidade de acelerar a construção de ecossistemas tecnológicos preparados para enfrentar a próxima década.

Jensen Huang, que há mais de uma década apostou os destinos da Nvidia na inteligência artificial e nos GPUs — um movimento que hoje se revelou visionário —, afirmou que o próximo inflexion point da revolução digital será a computação quântica.

Apesar do ceticismo demonstrado em janeiro — que levou inclusive à queda de ações no setor quântico —, o líder da Nvidia mostrou-se agora mais otimista:

“Está claro que estamos perto de aplicar a computação quântica-clássica a problemas reais, com valor económico nos próximos anos.”

Nesse sentido, Huang apresentou CUDA-Q, uma extensão da popular plataforma CUDA da Nvidia, agora pensada para ambientes híbridos que combinem GPUs e QPUs. Esta infraestrutura, de código aberto, visa acelerar a adoção empresarial da computação híbrida, com aplicações desde a simulação de materiais até à modelação financeira de alta complexidade.

As fábricas de IA: o novo paradigma da cloud

Mas talvez o momento mais estratégico da intervenção de Huang tenha sido a introdução do conceito de “AI factories” — data centers especializados não apenas em armazenar ou servir dados, mas em produzir inteligência.

“Tal como as fábricas de automóveis produzem veículos, estas fábricas vão produzir tokens inteligentes — as unidades operacionais da nova economia digital”, explicou.

Para empresas, este conceito representa uma disrupção: os data centers deixam de ser uma commodity de infraestrutura e passam a ser ativos de produção de valor cognitivo, essenciais para tarefas de design, simulação, planeamento e tomada de decisão em tempo real.

A nova plataforma Grace Blackwell, apresentada como uma “máquina de pensar”, permitirá criar gémeos digitais de fábricas, estações ferroviárias ou mesmo reatores de fusão, antecipando riscos e acelerando o time-to-market. Este avanço já está a ser utilizado por gigantes como BMW e Mercedes-Benz, e ganhará tração na Europa com o lançamento de uma cloud industrial da Nvidia, em parceria com a Schneider Electric e a startup francesa Mistral AI.

A IA argêntica e o renascimento da robótica para as PME

Huang também delineou o que considera ser o próximo estágio da evolução da inteligência artificial: a IA argêntica — sistemas capazes de perceber, raciocinar, planear e executar, em vez de apenas responder a comandos.

Mais do que uma evolução técnica, trata-se de um paradigma operacional com implicações económicas concretas. Huang prevê que, com a maturação das capacidades de raciocínio autónomo, pequenas e médias empresas poderão, pela primeira vez, aceder a soluções robóticas adaptáveis, reutilizáveis e economicamente viáveis.

“Era impossível ter essa capacidade de programação. Agora já não é”, afirmou, sinalizando a transição da robótica como um luxo de grandes multinacionais para um recurso estratégico acessível a negócios locais e familiares.

Esta visão é suportada pela plataforma Omniverse, que permite simular e treinar agentes físicos (como robôs) num ambiente virtual antes da sua aplicação no mundo real — um modelo que reduz custos e riscos para as empresas.

Uma chamada à ação para os decisores europeus

No palco de um dos maiores eventos tecnológicos da Europa, Huang fez mais do que apresentar tecnologias: lançou um repto aos líderes empresariais e políticos europeus. Acordar para a urgência de construir infraestrutura inteligente — não apenas para competir, mas para sobreviver num mercado global onde a velocidade de inovação se mede em ciclos de IA.

Para as empresas a nova vantagem competitiva não será apenas digital — será cognitiva. Aqueles que investirem agora em IA híbrida, infraestrutura inteligente e robótica adaptativa estarão mais bem posicionados para liderar nos próximos 5 a 10 anos.

Se o futuro pertencia outrora aos que sabiam calcular mais depressa, hoje pertence aos que sabem simular melhor, agir com mais autonomia e construir fábricas de inteligência onde antes havia apenas servidores.

Jensen Huang poderá ter redefinido o próximo ciclo tecnológico. As empresas atentas devem começaram a reorganizar os seus mapas de investimento.

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