O impacto da inteligência artificial no mercado de trabalho tem sido frequentemente discutido a partir de uma pergunta relativamente simples: quantos empregos poderão desaparecer? O novo estudo internacional do Adecco Group, On the threshold: AI, the future of work and the rise of hybrid labor markets, propõe uma leitura diferente. Mais do que medir a substituição de pessoas por máquinas, procura perceber como o trabalho poderá ser redesenhado quando capacidades humanas e sistemas digitais começarem a funcionar de forma mais integrada.
Os dados apresentados ajudam, desde logo, a afastar a ideia de uma rutura imediata. Nos 38 países da OCDE, a taxa de emprego mantém-se nos 72,1%, próxima de máximos históricos, enquanto o desemprego permanece perto de níveis mínimos. Entre 2023 e 2025 terão sido criados cerca de 1,3 milhões de empregos relacionados com inteligência artificial.
Há, no entanto, outro número talvez mais relevante para perceber o momento atual. Menos de uma em cada dez empresas integrou a IA, em escala, nos seus principais fluxos de trabalho. Ou seja, apesar da velocidade com que a tecnologia entrou no discurso empresarial, a transformação efetiva das organizações continua numa fase inicial.
É precisamente neste intervalo entre adoção tecnológica e transformação organizacional que poderá estar uma das mudanças mais profundas dos próximos anos. A questão deixa de ser apenas saber que tarefas podem ser automatizadas e passa a incluir decisões sobre como reorganizar funções, distribuir responsabilidades e identificar as competências que passam a ser necessárias quando pessoas e sistemas inteligentes trabalham sobre os mesmos processos.
O estudo cruza o grau de autonomia da IA com a concentração de tecnologia e capital e desenha quatro cenários para a próxima década. Num dos extremos encontra-se uma economia em que a tecnologia aumenta a produtividade sem provocar uma quebra significativa do emprego. No outro surge um cenário de automação muito elevada, concentração de poder e transformação radical do mercado laboral, considerado pelos autores como o menos provável.
A hipótese central situa-se, por isso, menos numa substituição generalizada do trabalho humano e mais na emergência de forças de trabalho híbridas, onde talento, competências e tecnologia são combinados dentro da mesma organização. Esta mudança tem consequências que vão além dos departamentos de recursos humanos. Obriga as empresas a pensar antecipadamente nas capacidades de que vão precisar, na forma como organizam equipas e nos processos onde faz sentido entregar tarefas à tecnologia.
Para Portugal, esta discussão assume uma dimensão particularmente concreta. Num mercado marcado pelo envelhecimento da população ativa e pela escassez estrutural de talento, aumentar a capacidade das pessoas existentes pode tornar-se tão importante como contratar novas competências. A IA surge, neste contexto, como uma possibilidade de retirar tempo a tarefas repetitivas e deslocá-lo para atividades onde o contributo humano continua a ter maior peso.
Adaptabilidade, aprendizagem contínua, pensamento crítico, empatia, inteligência emocional, criatividade, colaboração e capacidade de decisão poderão ganhar importância precisamente porque parte do trabalho mais repetitivo será progressivamente entregue à tecnologia. A transformação deixa assim de ser apenas tecnológica. Passa a ser também uma questão de organização, formação e desenho do trabalho.
É provavelmente aqui que se encontra a leitura mais interessante do estudo. A inteligência artificial pode alterar profundamente o mercado laboral sem que isso implique necessariamente o desaparecimento súbito de milhões de empregos. Pode fazê-lo de uma forma menos visível, modificando aquilo que se espera de cada função, as competências que determinam o seu valor e a relação entre pessoas e sistemas digitais.
O futuro do trabalho poderá, por isso, depender menos da escolha entre pessoas e inteligência artificial do que da capacidade das organizações para decidir onde cada uma acrescenta realmente valor.







