Durante duas décadas, grande parte do software empresarial teve uma unidade de medida simples: pessoas. Mais trabalhadores significavam mais licenças, mais subscrições e contratos maiores. A IA começa agora a quebrar essa relação entre número de funcionários e receita de software.
É esse receio, mais do que o desaparecimento das plataformas empresariais, que está por detrás da discussão sobre um possível “apocalipse SaaS”. Agentes de IA e ferramentas de desenvolvimento assistido podem executar fluxos de trabalho, automatizar processos e construir aplicações que anteriormente exigiam software especializado e utilizadores humanos.
Isso não significa que as empresas vão substituir rapidamente plataformas como a ServiceNow por aplicações produzidas internamente através de vibe coding. Recriar sistemas empresariais maduros, profundamente integrados nos processos das organizações, continua a ser difícil. O risco imediato para o SaaS não é deixar de existir. É precisar de menos utilizadores pagos para executar o mesmo trabalho.
A própria ServiceNow já começa a refletir essa mudança. Em 2025, apenas metade do novo valor anual dos contratos da empresa resultou de subscrições associadas a utilizadores. O crescimento está a deslocar-se para infraestrutura, integrações, conectores, consumo de tokens de IA e cibersegurança.
A diferença é importante. Num contrato tradicional, mil trabalhadores podiam significar aproximadamente mil licenças. Num modelo baseado no consumo, o preço passa a depender daquilo que aplicações, integrações e agentes utilizam ao longo do tempo. O fornecedor deixa de cobrar principalmente pelo acesso humano ao software e começa a cobrar pelo trabalho realizado dentro da plataforma.
Para os CIO, esta mudança pode parecer mais flexível, mas também torna os custos menos previsíveis. O número de licenças é relativamente fácil de contar. Tokens, chamadas entre sistemas, capacidade computacional, conectores e operações executadas por agentes exigem uma monitorização muito mais próxima.
O risco comercial muda de sítio. Já não basta negociar um desconto por utilizador no início do contrato. Será necessário compreender como o consumo é medido, que operações geram custos, que limites podem ser definidos e quanto poderá custar, ou seja, aumentar a utilização de IA dentro da organização. FinOps deixa, assim, de ser apenas uma disciplina associada à cloud e aproxima-se progressivamente da gestão do software empresarial.
A compra da Armis por 7,75 mil milhões de dólares encaixa nesta transformação. A operação leva a ServiceNow para mais perto da cibersegurança, mas também aumenta a quantidade de infraestrutura sobre a qual a sua plataforma pode recolher informação e desencadear ações. Computadores, equipamentos de rede, dispositivos IoT e equipamentos médicos passam a integrar um universo mais amplo sobre o qual os fluxos de trabalho podem atuar.
Quanto maior for esse universo, maior será também a quantidade de serviços que pode ser consumida através da plataforma. A aquisição da Armis não deve, por isso, ser vista apenas como uma entrada na segurança. É também uma forma de expandir o território económico da ServiceNow numa altura em que o tradicional modelo por utilizador começa a perder força.
Há, contudo, uma vantagem que a IA não elimina facilmente. Plataformas como a ServiceNow conhecem os processos das organizações, as integrações entre sistemas e a sequência de tarefas que permite ao negócio funcionar. Um modelo de IA pode gerar código rapidamente. Reproduzir anos de processos empresariais, dependências e integrações é outra coisa.
Esta é provavelmente uma das defesas mais fortes do software empresarial. O código pode tornar-se mais barato. O conhecimento sobre como uma organização funciona continua a ser caro de reconstruir.
Mas isto não protege o modelo comercial que financiou o SaaS. Microsoft pode agregar serviços, os grandes fornecedores de cloud podem integrar agentes diretamente nas suas plataformas e os produtores de modelos de IA estão a aproximar-se da camada aplicacional. A pressão competitiva aumenta precisamente quando os clientes começam a questionar por que razão devem continuar a pagar licenças destinadas a pessoas se uma parte crescente do trabalho passa a ser feita por máquinas.
Para os departamentos de compras tecnológicas, a consequência poderá ser profunda. Negociar software empresarial deixará progressivamente de significar, discutir quantas pessoas precisam de uma licença. Passará a significar negociar unidades de consumo, mecanismos de controlo, transparência de custos e capacidade de mudar de fornecedor.
A IA pode não matar o software empresarial. Pode, contudo, matar uma das suas ideias mais rentáveis, cobrar por cada pessoa que o utiliza. E quando esta unidade económica desaparece, não muda apenas o preço do software. Muda também a relação de poder entre quem o vende e quem o compra.







