IA jurídica abre espaço a uma nova profissão

À medida que a inteligência artificial entra nos fluxos de trabalho jurídicos, saber utilizar uma ferramenta deixa de ser suficiente. A Harvey quer transformar essa mudança numa competência profissional formal, através de uma certificação gratuita que cruza direito, tecnologia, processos e gestão da mudança.
19 de Agosto, 2026
Imagem gerada por IA

A Harvey lançou o Harvey Legal Engineer Certification Program, uma certificação gratuita e totalmente online destinada a profissionais que pretendam desenvolver competências para acompanhar a adoção de inteligência artificial em escritórios de advogados, departamentos jurídicos e outras organizações do setor.

Mais do que uma iniciativa de formação sobre uma determinada tecnologia, o programa procura responder a uma questão que começa a ganhar peso à medida que a IA é integrada no trabalho jurídico: quem, dentro das organizações, deve fazer a ligação entre as capacidades tecnológicas, as exigências profissionais do direito e a forma como as pessoas realmente trabalham?

É precisamente nesse espaço intermédio que surge o perfil de Legal Engineer, um profissional que combina conhecimento jurídico, compreensão da inteligência artificial, desenho de processos e capacidade para acompanhar a mudança dentro das equipas.

A relevância desta função ajuda também a perceber uma transformação mais ampla. A adoção de IA num departamento jurídico não se resume a disponibilizar ferramentas aos advogados. Implica perceber em que tarefas podem ser utilizadas, quais os riscos envolvidos, como devem ser integradas nos processos existentes e de que forma os profissionais do setor jurídico devem ser preparados para trabalhar com elas.

O programa da Harvey reflete essa abordagem. A componente jurídica aborda questões como confidencialidade, responsabilidade profissional, comunicação e mitigação dos riscos associados à utilização de IA, incluindo as respostas incorretas ou inventadas que podem ser produzidas pelos modelos de linguagem. A formação tecnológica inclui conceitos relacionados com modelos de linguagem de grande dimensão, agentes e técnicas de prompting, sem exigir conhecimentos de programação.

Ao mesmo tempo, existe uma componente dedicada à identificação de oportunidades de eficiência e à integração de ferramentas digitais nos processos de trabalho, complementada por matérias relacionadas com formação, facilitação e gestão da mudança. A mensagem implícita é que a utilização eficaz da IA depende tanto da tecnologia como da capacidade de redesenhar processos e conseguir que as equipas adotem novas formas de trabalhar.

Da utilização da IA à engenharia do trabalho jurídico

Esta combinação de competências é provavelmente o elemento mais relevante da iniciativa. A figura do Legal Engineer não é apresentada como um programador colocado dentro de um escritório de advogados, mas como alguém capaz de compreender simultaneamente o problema jurídico, as possibilidades da tecnologia e o funcionamento operacional da organização.

Essa diferença é importante. Uma ferramenta de IA pode ser tecnicamente capaz de executar determinada tarefa e, ainda assim, não produzir ganhos relevantes se for colocada num processo inadequado, utilizada sem critérios claros ou recebida com resistência pelas equipas. O valor passa, portanto, menos pela simples disponibilidade da tecnologia e mais pela capacidade de a integrar numa sequência de trabalho coerente.

A certificação procura fornecer uma introdução estruturada a estas competências. O curso tem uma duração estimada de duas horas, pode ser realizado ao ritmo de cada participante e inclui vídeos, leituras, exercícios baseados em casos práticos, avaliações intermédias e um exame final de escolha múltipla. Os participantes que alcançarem uma classificação mínima de 80% recebem a certificação Harvey Legal Engineer – Level 1.

A formação está disponível através da Harvey Academy e pode ser frequentada por advogados, profissionais de legal ops e especialistas em tecnologia jurídica, independentemente de trabalharem ou não com os serviços comerciais da empresa. O acesso público e gratuito reduz uma das barreiras mais imediatas à formação das equipas, uma vez que não exige orçamento adicional dedicado à certificação.

Para escritórios de advogados e departamentos jurídicos, o interesse da iniciativa pode ir além da certificação individual. O programa pode funcionar como uma base comum de conhecimentos para equipas que começam a incorporar inteligência artificial nos seus processos, estabelecendo uma linguagem partilhada entre juristas, operações e tecnologia.

Há, contudo, uma distinção importante entre formar profissionais e transformar organizações. Uma formação de duas horas pode introduzir conceitos, criar referências comuns e ajudar a estruturar competências, mas a adoção efetiva da IA continuará dependente da forma como cada organização traduz esse conhecimento nos seus processos internos. O próprio desenho do programa sugere essa realidade ao dedicar uma parte significativa da formação aos fluxos de trabalho, à capacitação das equipas e à gestão da mudança.

O aspeto mais significativo desta certificação pode, por isso, não estar no diploma, mas na formalização de uma nova função dentro do setor jurídico: alguém responsável por transformar capacidades de inteligência artificial em processos de trabalho concretos, compreensíveis e utilizáveis pelas equipas.

A Harvey apresenta o programa como uma ferramenta de desenvolvimento profissional e de capacitação das organizações. Ao fazê-lo, coloca também em evidência uma mudança na discussão sobre IA no direito. A questão começa a deixar de ser apenas quais ferramentas utilizar para passar a incluir quem, dentro das organizações, terá capacidade para decidir como devem ser integradas no trabalho quotidiano.

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