IA começa a retirar poder aos fornecedores tradicionais de software

A inteligência artificial está a mexer numa das relações mais consolidadas das TI empresariais. Se desenvolver software internamente se tornar mais rápido e barato, os CIO ganham uma nova arma negocial: poder deixar de comprar.
12 de Setembro, 2026

A digitalização das empresas tem significado comprar mais software. ERP, CRM, aplicações de recursos humanos, ferramentas de produtividade e dezenas de plataformas especializadas transformaram os fornecedores tecnológicos numa peça permanente da infraestrutura empresarial. A IA começa agora a introduzir uma variável diferente nesta equação: algumas aplicações que antes eram compradas podem passar a ser desenvolvidas dentro das próprias organizações.

Os números da McKinsey dão dimensão à mudança. A inteligência artificial já é utilizada por 89% das organizações em pelo menos uma função de negócio, mas apenas 37% dizem observar impacto positivo nos resultados operacionais. O problema deixou, por isso, de ser simplesmente adotar IA. É transformar essa tecnologia em valor económico.

É precisamente aí que surge uma ameaça para o modelo tradicional do software empresarial. Cerca de 32% das empresas já cancelaram a compra de aplicações comerciais para as desenvolver internamente, recorrendo a agentes de programação capazes de gerar código e executar autonomamente parte do trabalho de desenvolvimento.

Para os fornecedores, este número é mais importante do que parece. Não significa que um terço do mercado esteja a abandonar o software comercial, mas mostra que os CIO dispõem agora de uma alternativa que há poucos anos seria demasiado cara ou complexa para muitas organizações.

Essa alternativa muda a negociação. Quando o cliente pode construir, o fornecedor deixa de competir apenas com outros fabricantes de software. Passa também a competir com a capacidade interna do próprio cliente.

A consequência pode sentir-se primeiro nas aplicações mais específicas, com processos relativamente delimitados e elevado custo de licenciamento. Se um departamento de TI conseguir construir uma solução adequada às necessidades da empresa em semanas, recorrendo a agentes de IA, torna-se mais difícil justificar contratos dispendiosos apenas pela conveniência de comprar uma solução pronta.

Isto aumenta a pressão sobre preços, licenciamento e contratos de longo prazo, mas também sobre uma questão particularmente sensível para os CIO: o vendor lock-in. Quanto maior for a capacidade de desenvolver e modificar aplicações internamente, menor poderá ser a dependência de plataformas das quais é tecnicamente difícil — ou financeiramente caro — sair.

Os fornecedores continuam, contudo, a possuir vantagens importantes. Segurança, escala, conformidade, integração, suporte permanente e manutenção durante anos não desaparecem porque a IA escreve código. Construir uma aplicação é apenas o início. É necessário operá-la, protegê-la, atualizá-la e garantir que continua a funcionar quando mudam sistemas, legislação ou processos empresariais.

É precisamente por isso que a IA não anuncia o fim do software comercial. Está, sobretudo, a aumentar o nível de exigência sobre aquilo que merece continuar a ser comprado.

Os CIO terão de comparar de forma mais rigorosa o custo total das duas opções. Uma licença cara pode continuar a ser mais económica do que manter internamente uma aplicação crítica. Mas uma ferramenta relativamente simples, com preços elevados por utilizador e pouca diferenciação tecnológica, pode tornar-se um candidato evidente ao desenvolvimento próprio.

A pressão deverá crescer à medida que os agentes se tornam mais autónomos. A utilização mais profunda destas tecnologias em diferentes funções empresariais passou de 38% em 2025 para 44% em 2026, sobretudo entre grandes organizações, precisamente aquelas que possuem equipas, dados e capacidade financeira para desenvolver software internamente.

Há também limites económicos. Uma em cada cinco empresas já identifica os custos de processamento de dados e de utilização dos modelos como um obstáculo financeiro. Substituir licenças por desenvolvimento interno não elimina custos: desloca-os para cloud, computação, modelos de IA, segurança, integração e equipas técnicas.

Ainda assim, seis em cada dez organizações planeiam aumentar o orçamento destinado à IA durante os próximos 12 meses. Parte desse investimento poderá acabar precisamente na criação de capacidade tecnológica interna. Para os grandes fabricantes de software, esta é talvez a mudança mais relevante. Durante anos, a pergunta colocada ao CIO era essencialmente qual fornecedor escolher. A IA acrescenta uma pergunta anterior e potencialmente mais incómoda: precisamos realmente de comprar este software?

É aqui que começa a mudar o equilíbrio de poder.

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