O apagão de 28 de abril de 2025 deixou Portugal, Espanha e Andorra sem fornecimento elétrico e colocou à prova não apenas a infraestrutura energética, mas também os sistemas tecnológicos que dela dependem. Passado mais de um ano, permanecem dúvidas sobre a cadeia concreta de acontecimentos que conduziu ao incidente e, sobretudo, sobre se todas as vulnerabilidades que o tornaram possível foram identificadas e corrigidas.
As primeiras explicações oficiais apontaram para problemas de sincronismo e para a reduzida inércia do sistema elétrico, mantendo a possibilidade de sabotagem num plano remoto. O debate técnico, porém, não terminou aí.
Jordi Farré, decano do Colegio Oficial de Graduados e Ingenieros Técnicos de Telecomunicaciones de Cataluña, o COETTC, apresentou entretanto uma interpretação que coloca no centro da discussão a crescente digitalização da rede elétrica.
A diferença é relevante. Em vez de observar o incidente apenas como um problema de produção, transporte e equilíbrio elétrico, Farré analisa a rede como uma infraestrutura em que energia, sistemas eletrónicos de controlo e telecomunicações estão cada vez mais interligados.
Esta perspetiva não demonstra, por si só, a causa do apagão. Introduz, contudo, uma questão que importa separar das conclusões sobre o próprio incidente: até que ponto a transformação tecnológica do sistema elétrico criou novas dependências que também precisam de ser consideradas quando se avalia a sua resiliência?
Durante décadas, uma parte importante da geração elétrica assentou em grandes máquinas rotativas. A massa desses equipamentos proporciona naturalmente inércia mecânica ao sistema, ajudando a manter estável a frequência da rede perante alterações rápidas entre produção e consumo.
A produção solar fotovoltaica funciona de forma diferente. A eletricidade é gerada inicialmente em corrente contínua e necessita de equipamentos eletrónicos, os inversores, para ser convertida e sincronizada com a corrente alternada utilizada na rede.
À medida que aumenta o peso da geração baseada em eletrónica de potência, uma parte da estabilidade anteriormente associada ao comportamento físico das máquinas passa a depender do funcionamento e da coordenação de sistemas eletrónicos.
É precisamente neste ponto que a análise do COETTC introduz a dimensão das telecomunicações.
Segundo a tese apresentada por Farré, os inversores recorrem a redes de dados dedicadas e a sinais de referência que permitem coordenar a energia injetada na rede. Se esses canais de comunicação influenciarem diretamente o comportamento dos equipamentos, deixam de ser apenas uma infraestrutura auxiliar e tornam-se parte do próprio funcionamento do sistema elétrico.
Essa dependência abre uma hipótese teórica de segurança. Um agente com capacidade para emitir comandos através desses sistemas de dados poderia, segundo a análise, tentar alterar o comportamento dos equipamentos de injeção.
A possibilidade descrita é particularmente grave se ocorrer de forma coordenada. Caso um número suficientemente elevado de inversores fosse levado simultaneamente a alterar o desfasamento da sua sinalização relativamente à rede, esses equipamentos poderiam deixar de contribuir normalmente para a produção e passar a provocar uma carga adicional sobre o sistema.
Na sequência técnica proposta pelo COETTC, essa situação poderia provocar uma redução acentuada da tensão, acompanhada por um aumento da intensidade da corrente, conduzindo finalmente à perda de potência e ao colapso da rede.
O elemento decisivo desta hipótese não é a existência de um inversor com um comportamento anómalo, mas a possibilidade de muitos equipamentos receberem ou executarem alterações de controlo de forma simultânea.
É também aqui que termina aquilo que a informação disponível permite afirmar e começa aquilo que continua por demonstrar.
Não foram apresentados dados detalhados sobre eventuais ordens de controlo recebidas pelos inversores solares nos momentos críticos do apagão. Sem essa informação, não é possível concluir, a partir da hipótese descrita, que existiu uma intervenção externa, muito menos que o incidente resultou de uma operação deliberada.
A interpretação do COETTC parte precisamente dessa ausência de dados para questionar se a dimensão tecnológica e de comunicações do sistema recebeu atenção suficiente nas explicações apresentadas até agora.
Uma questão que vai além da causa do apagão
A relevância desta discussão não depende necessariamente de a teoria de Farré vir a revelar-se correta.
O apagão expôs uma realidade mais ampla: num sistema elétrico cada vez mais digitalizado, a fronteira entre infraestrutura energética e infraestrutura tecnológica torna-se progressivamente menos nítida.
Se equipamentos essenciais para a geração e gestão da eletricidade dependem de sistemas eletrónicos de controlo e de redes de dados, a análise da resiliência já não pode limitar-se aos componentes tradicionais da rede elétrica. Passa também a envolver a forma como esses equipamentos comunicam, recebem instruções e respondem a falhas ou comandos inesperados.
É esta interdependência que torna a hipótese apresentada pelo COETTC relevante para responsáveis de tecnologia, operadores de infraestruturas e decisores envolvidos na gestão de sistemas críticos.
Outra coisa, substancialmente diferente, seria transformar essa vulnerabilidade potencial numa explicação factual para o que aconteceu em abril de 2025.
O próprio material disponível não permite fazê-lo. A possibilidade de comandos coordenados sobre inversores permanece uma hipótese e a eventual existência de uma ação deliberada não está demonstrada pelos elementos apresentados.
O isolamento energético relativo da Península Ibérica em relação ao restante sistema europeu é usado pelo COETTC para reforçar a importância de estudar estas fragilidades. A organização admite mesmo a possibilidade de o incidente poder ser interpretado como uma demonstração das debilidades dos sistemas de controlo, mas essa interpretação continua dependente de evidências que não são apresentadas.
Mais do que provar uma explicação alternativa para o apagão, a análise coloca uma pergunta que permanece válida: saber se a segurança das redes de comunicações e dos sistemas de controlo está a evoluir ao mesmo ritmo que a digitalização da infraestrutura elétrica.
Enquanto não forem conhecidos dados técnicos suficientemente detalhados sobre o comportamento dos equipamentos durante os momentos que antecederam o colapso, separar vulnerabilidade possível, falha efetivamente ocorrida e eventual intervenção deliberada continuará a ser essencial para compreender o que aconteceu. E também para determinar o que deverá ser protegido antes de voltar a acontecer.







