Europa encontrou na Gronelândia espaço para a sua IA

Bruxelas prepara 200 milhões de euros de investimento e olha para a ilha como peça estratégica para data centers, IA, conectividade e matérias-primas críticas.
10 de Setembro, 2026

A União Europeia anunciou 200 milhões de euros de investimento na Gronelândia para 2026 e 2027, num pacote que inclui reforço da conectividade por satélite, modernização energética, matérias-primas críticas e o estudo da viabilidade de instalar data centers destinados a cargas de Inteligência Artificial na ilha.

A nova Declaração Conjunta foi assinada em Nuuk pela presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, pelo primeiro-ministro groenlandês, Jens-Frederik Nielsen, e pela primeira-ministra dinamarquesa, Mette Frederiksen. O acordo atualiza o quadro de cooperação em vigor desde 2015 e surge num momento em que o Ártico ganha peso económico, tecnológico e geopolítico.

Parte do investimento será canalizada através do Global Gateway para reforçar a conectividade digital. Em colaboração com a operadora local Tusass, a União Europeia pretende aumentar, nos próximos cinco anos, a capacidade das comunicações por satélite através de fornecedores europeus. Para Bruxelas, melhorar a infraestrutura digital da ilha é também uma forma de reduzir dependências externas numa região cuja importância estratégica está a crescer.

Mas o ponto mais relevante para a indústria tecnológica está nos data centers. O acordo prevê estudar a viabilidade técnica e económica da instalação destas infraestruturas na Gronelândia. O clima frio, que pode reduzir as necessidades de refrigeração, e o potencial hidroelétrico e renovável tornam a ilha particularmente interessante numa altura em que o crescimento da IA está a aumentar rapidamente a procura de eletricidade e capacidade computacional.

A equação, porém, depende da energia. A União Europeia deverá apoiar a empresa pública Nukissiorfiit na modernização das redes e na instalação de sistemas híbridos renováveis em comunidades mais isoladas. Está igualmente em análise a expansão da central hidroelétrica de Buksefjord, numa tentativa de responder ao crescimento esperado do consumo elétrico em Nuuk e, potencialmente, de novas infraestruturas digitais.

A Gronelândia oferece ainda outro ativo cada vez mais relevante para a soberania tecnológica europeia: matérias-primas críticas. O acordo prevê incentivar projetos de mineração associados às necessidades da indústria europeia, numa tentativa de criar cadeias de abastecimento menos expostas a fornecedores externos.

O projeto Amitsoq, dedicado à extração de grafite e classificado pela União Europeia como Projeto Estratégico no âmbito da legislação sobre matérias-primas críticas, mostra a direção desta política. Grafite, terras raras e outros minerais são componentes fundamentais de baterias, semicondutores, equipamentos eletrónicos e infraestruturas energéticas.

Para a Europa, a aposta na Gronelândia junta assim três problemas que até agora eram frequentemente tratados em separado: onde processar a próxima geração de cargas de IA, como garantir energia para os data centers e onde obter os materiais necessários para construir a infraestrutura tecnológica.

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