Cloud tem geografia e chegou à Patagónia

A cloud permite às empresas esquecer onde estavam fisicamente os seus servidores. A inteligência artificial está a obrigá-las a voltar a olhar para o mapa. A Patagónia argentina reúne frio, energia e território suficientes para atrair megacentros de dados, mas é também uma região de elevado valor ambiental. Para os CIO, a localização da computação deixa por isso de ser apenas uma escolha entre preço, disponibilidade e latência. É também uma decisão energética, ambiental e, cada vez mais, reputacional.
7 de Setembro, 2026

A Patagónia está a entrar no radar da indústria global de centros de dados num momento em que a inteligência artificial transforma a disponibilidade de eletricidade num dos recursos mais disputados da economia digital. A Argentina parte atrasada nesta corrida. Os centros de dados existentes no país são ainda relativamente pequenos e concentram-se sobretudo em Buenos Aires, enquanto a Amazon avança com uma grande infraestrutura no Chile, a Google constrói capacidade no Uruguai e o Paraguai apresentou um projeto apoiado por Taiwan. O interesse pelo sul argentino pode, no entanto, alterar este equilíbrio, sobretudo porque Neuquén e Chubut combinam baixas temperaturas, grandes extensões de terreno e acesso a diferentes fontes de energia.

O contexto energético ajuda a perceber porquê. Os centros de dados consumiram cerca de 415 TWh de eletricidade em 2024, aproximadamente 1,5% do consumo mundial, segundo a Agência Internacional de Energia. A percentagem global pode parecer relativamente reduzida, mas esconde um problema importante para quem planeia infraestrutura: a procura está fortemente concentrada geograficamente e pode assumir um peso muito elevado nas redes elétricas locais. A expansão dos servidores de alto desempenho utilizados em inteligência artificial está ainda a aumentar a densidade energética destas instalações.

A cloud pode parecer abstrata no ecrã de um CIO, mas continua a depender de edifícios, linhas de alta tensão, sistemas de refrigeração, água, terrenos e comunidades. A inteligência artificial apenas tornou essa realidade física muito mais difícil de ignorar.

Em Neuquén, a Pampa Energía estuda um centro de dados junto à central térmica de Loma de la Lata com capacidade para consumir até 500 MW, recorrendo à proximidade de Vaca Muerta, uma das maiores formações mundiais de gás de xisto. A infraestrutura elétrica necessária para chegar a essa dimensão poderia custar perto de 900 milhões de dólares, embora os potenciais investidores estejam inicialmente interessados em projetos piloto entre 20 e 40 MW. A norte-americana FlexDomes procura igualmente investidores para um centro de dados na província, cuja primeira fase teria 120 MW de capacidade informática e um investimento estimado em 1,4 mil milhões de dólares. Também este projeto estaria associado à energia de Vaca Muerta.

Em Chubut, a escala projetada é ainda maior. A polaca Green Capital anunciou uma infraestrutura que começaria nos 300 MW, com um investimento estimado em 3 mil milhões de dólares, mas que poderia chegar aos 3.000 MW. A empresa está a arrendar cerca de 1.298 quilómetros quadrados de terreno a sul de Trelew para construir produção eólica e solar própria, procurando evitar a dependência da rede elétrica nacional. O projeto permanece, contudo, numa fase anterior à decisão final de investimento e necessita de capital adicional. Esta diferença entre intenção e execução atravessa praticamente todas as propostas argentinas e é essencial para interpretar números que, à primeira vista, sugerem uma explosão iminente de capacidade.

É precisamente quando estes projetos passam das dezenas para as centenas ou milhares de megawatts que a discussão deixa de poder ser exclusivamente tecnológica ou energética. A Patagónia possui vastas áreas pouco povoadas, mas isso não significa que seja um território ambientalmente vazio. A região integra estepes, montanhas, sistemas fluviais, lagos, glaciares e extensões de floresta patagónica que desempenham funções importantes na conservação da biodiversidade e dos recursos hídricos. Na região administrativa denominada Patagónia Norte pelo sistema argentino de áreas protegidas existem oito áreas protegidas, distribuídas por Neuquén, Chubut, Río Negro e La Pampa, que em conjunto ultrapassam 1,5 milhões de hectares.

Chubut oferece um exemplo particularmente claro da importância ecológica deste território. O Parque Nacional Los Alerces, classificado como Património Mundial pela UNESCO, protege algumas das últimas áreas contínuas de floresta patagónica em estado próximo do natural e contém habitats de espécies endémicas e ameaçadas. A UNESCO considera estas florestas uma área de importância global para a conservação da biodiversidade e destaca também o sistema interligado de rios e lagos da bacia do Futaleufú.

Esta realidade exige, contudo, uma distinção fundamental. Não existe na informação atualmente disponível fundamento para afirmar que os centros de dados anunciados serão construídos dentro destas áreas protegidas ou que provocarão diretamente impactos sobre elas. Fazer essa associação seria especulativo. O que a importância ambiental da região demonstra é que a seleção concreta de cada localização precisa de incluir uma avaliação muito mais completa do território, das bacias hidrográficas, das infraestruturas energéticas necessárias e dos efeitos cumulativos que instalações desta dimensão podem produzir.

Para os CIO, esta distinção é particularmente importante porque altera aquilo que deve ser entendido por risco de infraestrutura. Durante muitos anos, a escolha de uma região de cloud ou de um fornecedor de colocation esteve centrada na disponibilidade, segurança, latência, soberania dos dados, preço e capacidade de expansão. A inteligência artificial não elimina nenhum desses critérios, mas acrescenta outros que anteriormente podiam permanecer fora da direção de sistemas de informação. A origem da eletricidade, as emissões associadas, a utilização de água, o método de refrigeração, a resiliência da rede elétrica e a exposição do fornecedor a conflitos ambientais ou sociais tornam-se relevantes quando uma organização pretende manter cargas críticas durante dez ou quinze anos.

A cloud tem uma geografia e essa geografia tem um custo ambiental. Quanto maior for a necessidade computacional da IA, mais difícil será separar a arquitetura tecnológica das condições físicas do lugar onde essa computação acontece.

A Patagónia torna esta tensão especialmente visível porque a mesma região que oferece condições naturais favoráveis ao funcionamento dos centros de dados apresenta modelos energéticos muito diferentes. O frio pode permitir reduzir parte das necessidades de refrigeração e existem recursos hidroelétricos, eólicos e solares, mas algumas das propostas em Neuquén dependem diretamente do gás de Vaca Muerta. O projeto da Green Capital segue outra lógica, procurando construir produção renovável própria, enquanto as propostas associadas a Vaca Muerta mostram como a disponibilidade de energia fóssil continua a ser suficientemente relevante para influenciar a localização da infraestrutura digital.

Esta diferença não é abstrata para uma empresa que compra capacidade computacional. A escolha entre fornecedores com matrizes energéticas distintas influencia a pegada ambiental das próprias operações digitais, sobretudo à medida que modelos de inteligência artificial e sistemas de processamento intensivo passam a funcionar continuamente. Um CIO pode não gerir uma central elétrica, mas uma decisão de arquitetura pode determinar indiretamente de que central depende uma parte relevante da sua computação.

O mesmo raciocínio deve aplicar-se à água. Os projetos argentinos conhecidos não fornecem informação suficiente para determinar quais serão as tecnologias de refrigeração utilizadas ou qual será o respetivo consumo hídrico, pelo que não é possível atribuir-lhes neste momento um impacto específico sobre os recursos de água da Patagónia. Esta ausência de informação não deve ser preenchida com suposições, mas deve transformar-se numa pergunta de contratação. Saber quanta água é utilizada, se existe recirculação, qual a origem desse recurso e como o consumo evolui em períodos de maior temperatura ou menor disponibilidade hídrica é cada vez mais relevante numa infraestrutura cuja vida útil poderá prolongar-se por décadas.

Há também uma dimensão humana que a linguagem da cloud frequentemente torna invisível. Famílias indígenas Mapuche vivem em áreas rurais de Neuquén e existe um historial de conflito com empresas do setor energético. A informação disponível não permite antecipar a relação dessas comunidades com cada futuro centro de dados, mas demonstra que os projetos tecnológicos estão a chegar a territórios onde já existem disputas em torno da exploração de recursos e da utilização da terra. Um operador pode cumprir requisitos técnicos e administrativos e ainda assim enfrentar contestação prolongada se as comunidades locais considerarem que os custos ambientais ou territoriais não foram adequadamente tratados. Para um cliente empresarial dependente dessa infraestrutura, o risco operacional e reputacional deixa rapidamente de pertencer apenas ao fornecedor.

O novo mapa do CIO

Nada disto elimina a oportunidade económica que a Argentina procura construir. Energia disponível, clima frio e espaço físico são recursos particularmente valiosos num mercado onde instalar centenas de megawatts de nova capacidade informática se tornou difícil e caro. A Patagónia tem condições para competir por uma parte desse investimento, sobretudo se conseguir combinar produção energética, conectividade e enquadramento regulatório suficientemente estável. O problema é que vários destes elementos ainda não estão resolvidos. A própria informação disponível identifica infraestrutura e conectividade como obstáculos e os intervenientes no setor alertam para a diferença entre manifestações de interesse e projetos que conseguiram financiamento, contratos e decisão final de construção.

A política acrescenta outra camada de incerteza. Alguns investidores acompanham as eleições presidenciais argentinas de 2027 e a possibilidade de serem criados incentivos fiscais adicionais através do denominado Super RIGI. O Governo de Javier Milei tem procurado aproximar o país das grandes tecnológicas e promover a Argentina como destino de investimento, mas mesmo o projeto associado à OpenAI permanece dependente de decisões e contratos definitivos.

Para os CIO, o caso argentino é relevante mesmo que nunca venham a contratar diretamente capacidade na Patagónia. O que está a acontecer ali é uma antecipação de uma mudança mais ampla na indústria. A cloud foi construída sobre a promessa de abstrair a infraestrutura física. A inteligência artificial está a fazer o percurso inverso porque as suas necessidades energéticas obrigam empresas, operadores e governos a confrontarem-se novamente com questões de território, energia e recursos naturais.

A próxima geração de decisões de cloud não poderá limitar-se a perguntar onde estão os dados. Terá também de perguntar onde está a energia, de onde vem essa energia, quanta água é necessária, que ecossistema suporta a infraestrutura e que riscos permanecem durante toda a vida do contrato.

A Patagónia pode tornar-se um novo polo da infraestrutura digital sul-americana. Tem recursos suficientes para justificar o interesse dos grandes investidores e um património natural suficientemente relevante para exigir prudência. O verdadeiro teste não será apenas saber quantos megawatts consegue oferecer à indústria da inteligência artificial, mas se conseguirá transformar essa capacidade em investimento tecnológico sem tratar território, água, biodiversidade e comunidades como custos externos ao projeto.

Para um CIO, essa talvez seja a principal mudança. A sustentabilidade deixou de ser um relatório produzido depois de escolhida a tecnologia. Quando a computação exige energia à escala de uma indústria pesada, sustentabilidade, arquitetura, continuidade operacional e risco financeiro passam a fazer parte da mesma decisão.

Opinião