A discussão em torno da inteligência artificial aplicada à saúde tem estado frequentemente concentrada na capacidade de automatizar tarefas administrativas. A Aisel Health parte de uma leitura diferente. Na psiquiatria, sustenta a empresa, acelerar a criação de documentação pode resolver apenas uma parte do problema e, em determinadas circunstâncias, tornar mais evidente outro: a fragmentação da informação clínica.
Fundada em 2024 por Augusta Klingsten Peytz e Christian Houen, a empresa sediada em Copenhaga está a desenvolver aquilo que descreve como um sistema operativo específico para psiquiatria e saúde mental. O objetivo é organizar informação clínica proveniente de diferentes fontes e disponibilizá-la aos profissionais no momento em que dela necessitam.
A proposta da Aisel não assenta apenas em produzir documentação mais depressa, mas em transformar um volume crescente de informação clínica em contexto utilizável durante o acompanhamento do paciente.
A empresa acaba de fechar uma ronda pré-seed de 1,7 milhões de euros, liderada pela Caesar Ventures, com participação da Nordic Web Ventures, LifeX e Angel Invest, além dos investidores já existentes Rockstart e EIFO. O capital deverá ser aplicado no reforço das equipas clínicas e de engenharia e na preparação da entrada no Reino Unido, inicialmente através do mercado da psiquiatria privada. Está também prevista posteriormente uma ronda Seed.
O financiamento é relevante sobretudo pelo tipo de problema que a empresa decidiu atacar. A digitalização da saúde trouxe consigo um crescimento contínuo dos registos clínicos. A chegada de ferramentas de inteligência artificial capazes de transcrever consultas ou produzir notas automaticamente pode aumentar ainda mais essa quantidade de informação.
Na interpretação da Aisel, o ganho de produtividade obtido na criação dos registos não elimina necessariamente o tempo gasto pelos médicos a reconstruir o percurso clínico de um paciente. Antes de uma avaliação, o profissional pode continuar a ter de consultar encaminhamentos, notas anteriores e informação distribuída por vários sistemas.
A empresa baseia esta leitura na sua investigação denominada The Documentation Minute, segundo a qual os psiquiatras dedicam uma parte significativa do seu tempo à recolha de evidências e à reconstrução do histórico do paciente antes de redigirem o próprio registo clínico.
Há aqui uma distinção importante. Automatizar documentação e tornar a informação clinicamente útil não são necessariamente o mesmo problema.
Quanto mais fácil se torna gerar documentação, maior pode tornar-se a necessidade de sistemas capazes de selecionar, relacionar e apresentar apenas a informação relevante para cada momento clínico.
É precisamente nesse ponto que a Aisel procura posicionar a sua tecnologia. Segundo a empresa, a plataforma pode combinar gravações de entrevistas, documentos existentes e informação fornecida pelos próprios pacientes, convertendo esses elementos em dados estruturados e contextualizados.
A intenção é que o profissional tenha acesso ao histórico relevante antes, durante e depois da consulta, sem depender exclusivamente da procura manual através de diferentes documentos e sistemas.
Esta abordagem desloca parte da discussão sobre IA clínica. Em vez de colocar a tecnologia no papel de substituto de uma tarefa desempenhada pelo profissional, a Aisel apresenta-a como uma camada de organização da informação que suporta a decisão humana.
É uma diferença relevante na psiquiatria, pelo menos na forma como a empresa define o problema. O processo clínico depende da interpretação do histórico do paciente e da capacidade de relacionar informação recolhida em momentos diferentes. Nesse contexto, a rapidez de produção das notas pode ter menos valor se o profissional continuar a não conseguir recuperar facilmente os elementos necessários para compreender um caso.
A proposta da Aisel procura, assim, aproximar duas áreas que nem sempre evoluíram ao mesmo ritmo: a capacidade dos sistemas para armazenar informação e a capacidade dos profissionais para a encontrar e interpretar dentro do tempo disponível.
Há, contudo, uma segunda dimensão inevitável neste tipo de plataforma. Quanto mais central se torna um sistema na organização de informação clínica, maior é a importância da segurança, proteção de dados e controlo sobre a utilização dessa informação.
A Aisel afirma não ter acesso aos processos clínicos dos pacientes e garante que os respetivos dados não são utilizados para treinar os modelos de inteligência artificial. Segundo a empresa, o armazenamento e processamento são realizados em servidores localizados na Europa, seguindo o Regulamento Geral sobre a Proteção de Dados e a legislação local aplicável.
Na saúde mental, a capacidade técnica de organizar informação clínica é apenas uma parte da equação. A confiança na forma como essa informação é armazenada, processada e utilizada será igualmente determinante.
A documentação fornecida não apresenta, contudo, dados independentes que permitam medir o impacto da plataforma na produtividade clínica, nos tempos de espera ou nos resultados obtidos pelos pacientes. As referências a menor sobrecarga das equipas, melhoria da experiência dos pacientes e maior rentabilidade das clínicas correspondem à descrição feita pela própria empresa sobre os benefícios da sua tecnologia.
Isso não diminui o interesse do problema identificado. Mostra apenas que a empresa se encontra ainda numa fase em que a tese tecnológica terá de ser demonstrada à medida que a plataforma ganha utilização comercial.
A entrada prevista no Reino Unido será, por isso, mais do que uma expansão geográfica. Será também um teste à capacidade da Aisel para transformar um conceito relativamente simples de explicar num sistema suficientemente integrado nos fluxos clínicos para alterar efetivamente a forma como os profissionais trabalham.
O ponto central da estratégia da empresa é particularmente atual: a próxima etapa da inteligência artificial na saúde pode depender menos da quantidade de informação que consegue produzir e mais da capacidade de encontrar, entre tudo o que já foi produzido, aquilo que realmente interessa ao profissional naquele momento.
Para a Aisel Health, é nesse intervalo entre documentação e contexto clínico que existe o espaço para construir o seu negócio.







