Agentes de IA: Muita conversa, pouca prática

Apesar do entusiasmo em torno da chamada IA agêntica, a maioria das empresas ainda não conseguiu transformar essa tecnologia em capacidades estáveis e críticas para o negócio. Um novo estudo mostra que a confiança, o controlo e a maturidade dos processos continuam a ser os principais travões.
15 de Janeiro, 2026
Imagem gerada por IA

Fala-se muito de agentes de inteligência artificial, mas pouco se vê da sua aplicação efetiva em ambientes de produção. Essa é a principal conclusão do relatório State of Agentic Orchestration Report 2026, divulgado pela Camunda, com base num inquérito a 1.150 executivos de TI, decisores de negócio e arquitetos de software responsáveis por automação de processos em grandes organizações.

Sete em cada dez empresas, espalhadas geograficamente pelos EUA, França, Alemanha e Reino Unido, afirmam já utilizar agentes de IA, mas apenas 11% dos casos de uso chegam efetivamente à produção. A discrepância entre experimentação e adoção prática é explicada, sobretudo, pela falta de confiança e pelo receio de perda de controlo sobre processos críticos.

Estas preocupações surgem de forma clara nos resultados do estudo. Oitenta e quatro por cento dos inquiridos temem riscos para o negócio se a TI não dispuser de mecanismos de controlo adequados, enquanto 80% manifestam inquietação quanto à falta de transparência no funcionamento da IA. A conformidade regulatória é outro fator relevante, apontado por 66% dos participantes. Metade dos entrevistados receia ainda que agentes de IA mal controlados agravem problemas já existentes em processos e automações deficientemente implementados.

Na prática, o potencial dos agentes continua pouco explorado. O estudo revela que 80% das empresas utilizam agentes de IA sobretudo sob a forma de chatbots ou assistentes, limitados à criação de resumos ou à resposta a perguntas, sem capacidade para lidar com processos críticos para o negócio. Em paralelo, 48% indicam que estes agentes funcionam em silos, sem integração de ponta a ponta com os processos empresariais contínuos.

Este quadro contrasta com a evolução positiva da automação em geral. Noventa e cinco por cento das empresas registaram crescimento do negócio através da automação de processos no último ano, um valor superior aos 87% do ano anterior. Atualmente, cerca de 48% dos processos estão automatizados, mas as organizações acreditam poder atingir 64% no futuro. Para lá chegar, 79% planeiam aumentar o investimento em automação, com um crescimento médio dos orçamentos de 20% nos próximos dois anos.

O avanço da automação traz, contudo, um aumento significativo da complexidade tecnológica. As plataformas tornam-se mais distribuídas e os processos passam a envolver um número crescente de pontos de integração. Em média, as empresas gerem cerca de 50 endpoints por processo, incluindo aplicações empresariais como SAP, Oracle e Salesforce, ferramentas de automação e soluções de IA e machine learning. Segundo o relatório, este número cresce a um ritmo anual de 14%.

Esta fragmentação dificulta a obtenção de valor dos investimentos em IA e automação. Oitenta e cinco por cento dos inquiridos admitem precisar de melhores ferramentas para gerir as interfaces entre processos, de forma a manter coerência, visibilidade e controlo.

É neste contexto que surge o conceito de orquestração agêntica, que procura coordenar agentes de IA dentro de processos de negócio estruturados, combinando raciocínio dinâmico com regras determinísticas. A maioria dos participantes reconhece o potencial: 88% concordam que a IA pode ir além das abordagens atuais aos processos de negócio e que esse valor só é maximizado com uma orquestração adequada. Ainda assim, 85% admitem não ter maturidade suficiente nos seus processos para implementar este modelo.

A própria Camunda, promotora deste estudo, defende que o foco não deve estar em agentes isolados, mas na sua coordenação. Segundo a empresa, a combinação entre orquestração determinística, que define regras claras, e orquestração dinâmica, que permite adaptação em tempo real envolvendo agentes de IA, pessoas e sistemas, pode criar uma base mais sólida de confiança. Só assim, argumenta, será possível transformar experiências pontuais com IA em capacidades estáveis e relevantes para o negócio.

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