Ângelo Gama

A rota atlântica da computação e da energia

"O foco da Angola Cables consiste em aproximar a capacidade digital de mais de mil milhões de pessoas, combatendo as desigualdades de conectividade."
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Em Lisboa, na conferência Atlantic Convergence, estivemos à conversa com Ângelo Gama, CEO da Angola Cables, para perceber como a inteligência artificial e a procura urgente por energia estão a transformar o Atlântico numa autoestrada direta entre África, a América do Sul e a Europa, e como a empresa quer posicionar o continente africano no centro da produção digital global.

Com o avanço da inteligência artificial e a urgência de colocar o processamento mais perto de quem o usa, que papel passa a ter o Atlântico nas telecomunicações mundiais?

A próxima vaga da economia digital apoia-se inteiramente na inteligência artificial e isso obriga-nos a ver o oceano não como uma barreira que separa terras, mas como uma ponte feita de cabos submarinos. A grande procura futura virá das tarefas de inferência distribuídas pelo mundo, o que nos força a aproximar o poder de computação dos utilizadores e a redesenhar a forma como os dados viajam entre continentes.

Apesar da chegada recente de novas rotas submarinas lançadas por gigantes tecnológicas, o que continua a faltar na costa ocidental africana?

Cabos recentes como o 2Africa ou o Equiano, financiados por grandes multinacionais, foram desenhados sobretudo para satisfazer as necessidades dos operadores de hiperescala, ligando pontos muito específicos na Europa, na Nigéria e na África do Sul. Esses traçados não substituem a cobertura de sistemas como o WACS, que toca em dez países africanos diferentes ao longo da costa atlântica. Para desenvolver a região, é essencial ligar os portos de amarração a redes terrestres que levem o sinal até ao interior do continente, razão pela qual a Angola Cables continua a atualizar e a investir nesta infraestrutura mais próxima das populações locais.

Como se articula o trabalho conjunto com os grandes nós de tráfego europeus na ligação com o Brasil e a África?

Quando se olha para o intercâmbio de dados internacional, o tempo de resposta das redes é crítico, e entidades globais procuram caminhos alternativos e redundância para as ligações entre a Península Ibérica e a América Latina. O sistema da Angola Cables, conjugando o cabo que desce a costa africana com o SACS até ao Brasil, permite ligar a Europa, a África e o mercado brasileiro com o menor atraso possível no sinal. A chegada de aplicações de inteligência artificial em tempo real vai consolidar um novo corredor direto no eixo Sul-Sul, contrariando o hábito de canalizar todo o tráfego e distribuição de conteúdos obrigatoriamente através do hemisfério norte.

Com as preocupações crescentes em torno da água e da eletricidade consumidas pelos novos centros de dados, de que forma África pode responder a este desafio?

A questão da água começou a encontrar resposta com o recurso a circuitos fechados de refrigeração líquida nos novos sistemas de computação, aliviando a pressão sobre recursos naturais que causou atritos com populações locais em Espanha. No campo da energia, para evitar uma dependência do nuclear, o caminho passa pelas renováveis, onde o continente africano tem condições solares excecionais e uma enorme capacidade hídrica por aproveitar. A estratégia mais lógica passa por levar a computação para junto da eletricidade em vez de transportar a energia para longe, aproveitando excedentes hidroelétricos a custos acessíveis para transformar África de simples consumidora em produtora de tecnologia.

De que forma a Angola Cables está a conduzir a sua expansão internacional e que espaço reserva para o mercado europeu?

A presença da Angola Cables na Europa assenta em parcerias para complementar a malha já existente no continente com ligações diretas ao mercado sul-americano e a África, apoiando-se numa rede integrada de transporte de dados ligada a centenas de centros de processamento. O Brasil continua a ser uma aposta de grande escala, com forte investimento e amarração de dois eixos marítimos cruciais, sem esquecer a prioridade permanente em África. O foco da Angola Cables consiste em aproximar a capacidade digital de mais de mil milhões de pessoas, combatendo as desigualdades de conectividade e criando bases para que as economias locais comecem também a exportar as suas próprias ferramentas digitais.

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