A transformação provocada pela inteligência artificial não está apenas relacionada com a quantidade de capacidade computacional necessária para treinar e executar novos modelos. Está também a alterar a relação entre computação, dados e localização. A economia digital ainda é construída em torno da concentração nos grandes centros urbanos que acumularam redes, capacidade de processamento e pontos de interligação porque a escala permitia concentrar recursos e otimizar a utilização da infraestrutura. No entanto a evolução dos sistemas de IA introduz uma variável que ganha peso à medida que as aplicações passam da experimentação para operações críticas: a distância entre o processamento e o local onde a decisão tem de ser executada.
Quando agentes autónomos distribuídos começam a participar em processos industriais, na gestão de frotas, na monitorização remota de doentes ou na operação de infraestruturas públicas, alguns milissegundos deixam de ser apenas uma questão de desempenho de rede. A latência passa a ter uma relação direta com a capacidade de uma organização executar uma operação no momento em que ela é necessária. É esta mudança que ajuda a explicar a crescente importância de arquiteturas distribuídas, nas quais parte da capacidade computacional é deslocada para mais perto dos locais onde os dados são produzidos e onde as decisões são tomadas. A chamada edge computing, neste contexto, não representa apenas uma evolução técnica da infraestrutura: corresponde a uma alteração na forma como a capacidade digital é distribuída pelo território.
Esta mudança tem uma consequência importante para os responsáveis de tecnologia. A infraestrutura deixa de poder ser avaliada apenas pela capacidade de armazenamento ou processamento que disponibiliza. A localização dessa capacidade, a qualidade das ligações, os tempos de resposta e a possibilidade de manter diferentes rotas de comunicação passam a integrar a mesma equação. A inteligência artificial está, por isso, a transformar a geografia da infraestrutura digital numa variável de negócio. Uma aplicação pode dispor de capacidade computacional suficiente e, ainda assim, não cumprir os requisitos operacionais se os dados tiverem de percorrer longas distâncias antes de serem processados ou se dependerem de uma arquitetura excessivamente concentrada.
Há uma segunda transformação, menos visível para quem olha apenas para a infraestrutura física, mas igualmente relevante: a questão do controlo sobre os dados. À medida que as organizações distribuem aplicações, sistemas de IA e processos digitais por diferentes ambientes, saber onde a informação está armazenada já não é suficiente. Torna-se necessário compreender por onde circula, que infraestruturas atravessa e que mecanismos existem para garantir o controlo sobre esse percurso. É neste ponto que o conceito de soberania digital apresentado no Atlantic Convergence, a acontecer em Lisboa (30/9 e 1/10), ganha uma dimensão operacional. A soberania dos dados não depende apenas do local onde a informação está armazenada, mas também da capacidade de controlar o seu percurso e a infraestrutura que o suporta.
Para empresas e instituições que trabalham com informação corporativa, clínica ou financeira, esta questão cruza-se com requisitos de conformidade e com a necessidade de assegurar a continuidade das operações. A descentralização da infraestrutura pode aumentar a resiliência ao evitar uma dependência excessiva de um único ponto, mas exige também uma arquitetura capaz de gerir diferentes rotas, pontos de interligação e ambientes de processamento. O desafio deixa, assim, de ser simplesmente construir mais infraestrutura. Passa por construir uma infraestrutura que permita às organizações saber onde os seus dados estão, como circulam e que capacidade existe para manter as operações quando uma determinada rota ou localização deixa de estar disponível.
É nesta mudança que a Península Ibérica procura encontrar um novo papel no mapa digital europeu. A proposta apresentada pela DE-CIX através do conceito de “Capital Digital Distribuída” assenta na complementaridade entre Madrid, Lisboa e Barcelona. Madrid surge como nó de agregação, Lisboa como ponto de entrada submarina do Atlântico e Barcelona como ponto de diversidade no Mediterrâneo. A relevância desta arquitetura está menos na capacidade de qualquer uma destas cidades isoladamente e mais na possibilidade de funcionarem como uma rede de localizações complementares. O modelo reduz a dependência de um único hub e combina diferentes geografias, rotas e pontos de acesso.
Esta lógica ganha particular importância quando se observa a posição histórica dos grandes centros europeus de conectividade. Frankfurt, Londres, Amesterdão e Paris continuam a representar uma concentração significativa de infraestrutura, mas a evolução das necessidades digitais abre espaço para arquiteturas complementares. A Península Ibérica pode funcionar como uma dessas estruturas, sobretudo pela sua posição relativamente às ligações atlânticas e mediterrânicas e pela capacidade de estabelecer rotas diretas com regiões que anteriormente dependiam de trajetos mais longos através do norte da Europa ou da América do Norte.
Os tempos de resposta apresentados no evento, entre cinco e dez milissegundos em determinadas interligações do sul da Europa, ajudam a perceber a importância desta mudança. Para uma pessoa, diferenças desta ordem são praticamente impercetíveis. Para determinados sistemas industriais ou aplicações que dependem de processamento próximo do local onde ocorre uma operação, podem ser relevantes. A conectividade passa, assim, de uma função essencialmente associada à transmissão de informação para uma componente da própria arquitetura operacional das organizações.
O efeito mais amplo desta evolução é uma alteração da lógica de investimento. À medida que a IA passa a fazer parte de processos críticos, os investimentos em computação deixam de poder ser separados dos investimentos em conectividade, localização e resiliência. A capacidade de processamento pode continuar concentrada para determinadas tarefas, nomeadamente no treino de modelos, mas a execução de aplicações pode exigir uma distribuição muito maior da capacidade. A combinação entre computação centralizada e inferência distribuída cria, desta forma, uma arquitetura híbrida em que diferentes localizações desempenham funções distintas.
Lisboa assume neste desenho uma posição particularmente ligada ao Atlântico e às infraestruturas submarinas. Madrid concentra a função de agregação e Barcelona acrescenta diversidade através do Mediterrâneo. A existência de fibra ótica, 35 cabos submarinos e um ecossistema de interligação denso, segundo os dados apresentados no evento, constitui a base física desta proposta. Mas a questão central não está apenas na quantidade de infraestrutura disponível. Está na forma como diferentes elementos podem ser combinados para criar redundância, reduzir latências e estabelecer rotas alternativas.
A evolução aponta ainda para uma infraestrutura cada vez menos confinada ao território terrestre. As ligações orquestradas, os pontos de intercâmbio distribuídos e a integração com plataformas de satélite apontam para uma expansão da conectividade que torna mais complexa a arquitetura sobre a qual irão funcionar os serviços digitais. O que está em causa é uma passagem de uma infraestrutura digital concentrada para uma infraestrutura distribuída, na qual localização, conectividade e controlo dos dados passam a estar intimamente ligados.
Para os decisores tecnológicos, esta transformação significa que a pergunta sobre onde colocar capacidade computacional deixa de ter uma resposta exclusivamente económica ou técnica. A localização passa a ser também uma questão de latência, continuidade, soberania e acesso às redes. E, à medida que a inteligência artificial aumenta a quantidade de processos que dependem de decisões automatizadas e de dados em tempo quase real, a arquitetura física que sustenta esses sistemas deixa de ser uma camada invisível da tecnologia para se tornar parte da própria estratégia digital das organizações.







