3.ª Série. Episódio #1: Com Theresa Bobis, Head of Emerging Wholesale Markets na DE-CIX

Em análise no podcast “Dados à Conversa”, conduzido por Hélder Quintela numa conversa com, Theresa Bobis, Head of Emerging Wholesale Markets na DE-CIX, a confluência entre amarrações de cabos submarinos, novos centros de processamento e fontes energéticas coloca a Península Ibérica como rota estratégica alternativa aos mercados centrais europeus, num momento em que a retenção local do tráfego e a proximidade da infraestrutura física determinam o desempenho e a segurança dos sistemas empresariais.
29 de Setembro, 2026

Historicamente, o fluxo do tráfego digital europeu esteve concentrado no eixo setentrional composto por Frankfurt, Londres, Amesterdão e Paris. Contudo, ao longo da última década, as rotas internacionais de dados começaram a diversificar-se face à evolução geopolítica global e à necessidade de garantir resiliência operacional através de novos trajetos de rede. Neste contexto de reconfiguração geográfica, Lisboa passou a constituir uma rota de tráfego alternativa essencial devido à sua localização estratégica de cruzamento entre África, América Latina, Europa e Ásia. Esta posição geográfica permite a criação de caminhos de transmissão contínuos capazes de atenuar o impacto de eventuais ruturas nos sistemas de ligação entre os continentes.

A proximidade física aos nós de amarração e interligação produz igualmente impactos diretos no tempo de resposta das aplicações digitais. No passado, o tráfego proveniente de cabos submarinos africanos com destino formal a Lisboa não terminava na capital portuguesa, sendo encaminhado diretamente para Londres com uma latência que rondava os 24 milissegundos. O estabelecimento de ligações diretas a partir de Lisboa e a sua interconexão com Madrid reduziram o tempo de transmissão em cerca de 7 milissegundos, permitindo que as organizações sediadas no continente africano acedam a plataformas operacionais e conteúdos na Península Ibérica sem a dependência exclusiva de nós remotos situados no norte da Europa.

Capacidade computacional e integração local

Paralelamente à infraestrutura submarina, o território português tem registado uma concentração de investimentos em instalações computacionais e centros de processamento de dados. A disponibilidade de recursos na rede elétrica e de bioenergia sustenta a expansão de centros de processamento de grande escala entre Lisboa e Sines, abrangendo infraestruturas dimensionadas para potências na ordem do gigawatt orientadas para cargas de trabalho de inteligência artificial. A atividade de operadores como a Equinix e o desenvolvimento de ativos imobiliários e tecnológicos de grande dimensão por grupos como a Merlin Properties refletem a canalização de unidades de processamento gráfico e sistemas de computação de elevado desempenho para estas plataformas nacionais.

Esta proximidade da capacidade computacional e das plataformas neutras de interconexão tem reflexos na governação do tráfego corporativo. Quando uma organização acede a serviços de nuvem ou a modelos analíticos complexos por vias indiretas, os pacotes de dados podem atravessar múltiplos países antes de regressarem ao utilizador, expondo as comunicações a pontos intermédios de vulnerabilidade. As plataformas neutras de interconexão permitem reter o trânsito de dados a nível local através de ligações dedicadas, assegurando às empresas o controlo sobre o percurso exato por onde viajam as suas informações institucionais, transações financeiras e modelos computacionais.

A arquitetura das operações críticas avança no sentido de complementar as rotas terrestres e submarinas com centros de processamento periféricos e constelações de satélites em órbita baixa. Esta estrutura contínua procura manter a estabilidade do fluxo de dados perante as exigências de soberania digital, um domínio em que a existência de fornecedores locais e nativos de infraestrutura na Europa facilita a aplicação dos quadros regulamentares comunitários sem desvirtuar a natureza distribuída da computação em nuvem.

O ecossistema depende, em simultâneo, da formação de competências especializadas nos quadros técnicos locais. A gestão de nós de amarração, a engenharia de intercâmbio de tráfego entre cidades e continentes e o suporte à operação física dos centros de processamento exigem currículos académicos direcionados para a base material da rede. A articulação entre operadores de telecomunicações, promotores imobiliários, fornecedores de energia e decisores públicos torna-se imperativa, dado que a capacidade de atrair projetos avançados de computação exige a coexistência equilibrada entre potência energética, nós de interligação seguros e conectividade territorial.